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Câncer de próstata: fazer ou não o rastreamento?

Câncer de próstata: fazer ou não o rastreamento?

Nivelar por baixo é sempre mais fácil

Quando se fala de câncer de próstata, mesmo em rodas com experts no assunto, as discussões podem ser longas e, por vezes, acaloradas. Isso acontece dado o mar de incertezas que banha esse tema tão sensível, importante e ameaçador às vidas dos homens. 

Hoje, em pleno novembro azul, essa discussão inundou meus aplicativos de mídia social com pessoas leigas no assunto sendo angariadas para o debate, muitas vezes como novos adeptos ao grupo dos acalorados. Considero o fenômeno bastante positivo e espero poder ajudá-lo com algumas reflexões sobre o tema.

O câncer de próstata é o segundo câncer que mais mata homens no Brasil. Alguns estudos falam em cerca de 44 mortes por dia causadas por essa doença que, vale ressaltar, não possui método eficaz de prevenção, mas é curável em sua fase inicial. Nesse momento, você pode estar se perguntando como é possível haver tantas mortes por uma doença curável, não é mesmo?

Pois é, o câncer de próstata é uma doença silenciosa, dissimulada e traiçoeira. 

Se você for homem, saiba que pode estar com câncer de próstata enquanto lê esse artigo. Não digo isso para ser sensacionalista, mas é importante que saiba: o único momento do ciclo da doença em que é possível um tratamento curativo, é quando o tumor ainda não cresceu ao ponto de se manifestar com sintomas. Ou seja, ela é silenciosa e, apenas o exame do sangue (PSA), o famoso toque retal, uma ressonância magnética, uma biópsia e, quem sabe, um PET-Scan podem nos permitir visualizá-la. 

Na medicina, que não é uma ciência exata, existe uma máxima que diz “como no amor, nem nunca nem sempre” e o câncer de próstata sabe se utilizar disso muito bem. É possível sim ter a doença mesmo com PSA e toque retal normais, assim como é possível não ter câncer apesar de PSA e toque retal alterados. É uma doença dissimulada em que as alterações dos exames de rastreio podem estar presentes em outras situações como infecções, por exemplo. 

Muitos médicos e ditos estudiosos no assunto, preferem se manter na superficialidade e optam por encerrar a discussão por aqui. Claro, parece óbvio, não é mesmo? Se o PSA e o toque retal, que são os exames que utilizamos como rastreio, podem não ser confiáveis, então vamos parar com essa discussão e deixar de realizá-los. Já pensou que absurdo ter que fazer uma biópsia? 

Alguns conseguem ir um pouco mais além da discussão e debatem sobre as incertezas dos resultados de uma biópsia de próstata. Como assim, mais incertezas? 

Na hora de analisar a próstata com uma biópsia, nós não pegamos o órgão todo, avaliamos e o devolvemos ao local em caso de benignidade. Na verdade, nós pegamos fragmentos da próstata para análise e, infelizmente, às vezes esses não são fragmentos da área doente ou não representam o grupo de células malignas mais agressivas do local. Portanto, uma biópsia benigna não significa ausência de doença, assim como um câncer detectado pode não ser classificado da maneira correta. O câncer de próstata é traiçoeiro! 

É traiçoeiro, mexe com o imaginário do homem, ameaça sua sexualidade e, para muitos, ameaça até a masculinidade. Pronto! Todos os ingredientes estão na mesa para nivelar a discussão por baixo e encerrá-la aqui mesmo. Afinal, é uma doença difícil de diagnosticar, classificar e o tratamento pode comprometer minha qualidade de vida.

Câncer de próstata: fazer ou não o rastreamento?

No entanto, hoje, a realidade do mundo é outra. Os especialistas já entenderam os pontos de fragilidade na avaliação e não recomendam biópsias baseados apenas no resultado do PSA, não confiam plenamente nos resultados de uma biópsia arcaica e mal feita e não sugerem tratamento para qualquer tipo de câncer. 

Segundo o próprio ministério da saúde, em questionável nota técnica de 2023 (https://shorturl.at/tKR47), as vantagens de rastrear o câncer na população são:

– Identificar a doença no início

– Aumentar a chance de sucesso no tratamento.  (Incrível, substituíram o termo cura por “sucesso no tratamento”)

Já as desvantagens:

– Ter um resultado que indica, mas não confirma o câncer, gerando ansiedade e necessidade de novos exames como a biópsia.

– Diagnosticar e tratar um câncer que não evoluiria ou ameaçaria a vida. 

– O tratamento pode causar impotência e incontinência urinária. 

Ainda bem que existem os inconformados, os resilientes e os perseverantes. Hoje, muitos especialistas buscam novos métodos de rastreio, melhoram o diagnóstico com biópsias fusionadas com as imagens da ressonância magnética ou até mesmo com outros métodos sem uma biópsia propriamente dita. Sem falar nos avanços tecnológicos do tratamento com técnicas cirúrgicas que utilizam plataformas robóticas e potenciais tratamentos sem cirurgia ou que se valem de radiofármacos e da nanotecnologia. 

Nós estamos cientes das dificuldades e das desvantagens envolvidas no processo de rastreio do câncer de próstata. Mas, recomendar que os exames não sejam realizados pode ser considerado por alguns, perverso com a população masculina brasileira tão carente de informação, assistência básica e acesso aos exames de ponta. 

Essa nota técnica pode ser mais daquelas medidas que nivela essa discussão por baixo e, quem sabe, a saúde masculina brasileira como um todo. Muitas vezes, é na busca pelo exame de próstata que esse homem é inserido da rede de assistência básica de saúde e tem a oportunidade de realizar outros diagnósticos como o da diabetes e da hipertensão, por exemplo. 

Em relação ao câncer de próstata especificamente, ao denegrir a importância dos exames de rastreio, a realidade de mortes pela doença pode se tornar ainda mais dura em um futuro muito próximo, assim como foi visto em outros países que assumiram o mesmo discurso. 

Manter o discurso de que o hábito de vida saudável previne o aparecimento da doença e de que a decisão sobre a realização ou não dos exames da próstata deve ser feita em conjunto com o seu médico não alcança, não conversa com a imensa maioria da população masculina do Brasil. É quase que transferir ao homem menos favorecido a responsabilidade por morrer da doença, enquanto aqueles com maior poder aquisitivo podem discutir sobre o assunto no ar condicionado dos consultórios e clínicas privadas das capitais financeiras do país. 

A discussão sobre fazer o rastreio não deveria levar em consideração apenas ensaios clínicos realizados em países ricos de população branca. Sabemos que homens negros possuem risco maior de desenvolver a doença e, quando desenvolvem, o risco é maior para os subtipos mais agressivos. Onde nós vivemos? Na Suécia?

Sim, sou obrigado a concordar que, com os métodos atuais de rastreio, precisamos alcançar 1000 homens para salvar 1. Por outro lado, enquanto não conseguirmos melhores métodos de rastreio, ao invés de abandoná-los, não deveríamos rastrear 2000, 3000, 4000? A resposta para esse questionamento é simples: custo! 

E assim damos valor à vida. 

Câncer de próstata: fazer ou não o rastreamento?
Dr. Daniel Hampl


Daniel Hampl é urologista, pós-graduado em uro-oncologia, doutorado em fisiocirurgia pela UERJ e cirurgião robótico certificado pela Intuitive Surgical – DaVinci Surgery

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