Câncer de Próstata

Fase 1 de 9

Entender o câncer de próstata: antes dos exames e tratamentos, que doença é essa?

Quando alguém fala em câncer de próstata, é fácil imaginar uma única doença, com uma causa definida, um comportamento previsível e um tratamento que deve começar assim que o diagnóstico é feito. Não é bem assim.

O câncer de próstata é extremamente frequente, principalmente com o envelhecimento. Mas existe uma diferença importante entre encontrar células de câncer na próstata e ter uma doença que, de fato, possa ameaçar a saúde ou a vida de um homem. E o risco de câncer de próstata não é igual para todos: ele muda com a idade, com a família, com os genes e com a ancestralidade.

O câncer de próstata aparece em quantos homens?

Muitos. A estimativa para 2022 foi de aproximadamente 1,46 milhão de novos diagnósticos e cerca de 397 mil mortes pela doença no mundo.1 No Brasil, a estimativa do INCA para 2026 a 2028 o coloca como o câncer mais frequente entre os homens.2 Mas número de diagnósticos e número de mortes não significam a mesma coisa.

O risco de câncer de próstata aumenta com a idade?

Muito. Quando pesquisadores examinaram próstatas de homens que morreram por outras causas, encontraram focos microscópicos de câncer em aproximadamente 5% dos homens com menos de 30 anos. Entre homens com mais de 79 anos, a revisão dos estudos de autópsia encontrou câncer de próstata em cerca de 59%.3

Câncer de próstata encontrado em autópsias: cerca de 5% dos homens com menos de 30 anos e cerca de 59% dos homens com mais de 79 anos

Isso não significa que metade dos homens idosos morrerá de câncer de próstata. Significa que, conforme envelhecemos, fica cada vez mais comum encontrar pequenas populações de células que poderiam ser chamadas de câncer ao microscópio. Muitas delas talvez nunca provocassem qualquer problema durante a vida daquele homem.

Há ainda outro fator: quanto mais um país procura câncer de próstata, mais câncer de próstata encontra. Países onde muitos homens fazem PSA tendem a apresentar incidências maiores.1

Ter câncer na próstata é a mesma coisa que ter uma doença perigosa?

Não. Essa talvez seja a frase mais importante deste texto.

Encontrar um tumor pode salvar a vida de um homem quando identificamos cedo uma doença que, sem tratamento, poderia crescer e se espalhar. Mas também podemos encontrar tumores de crescimento tão lento que nunca provocariam consequência nenhuma.

É isso que chamamos de sobrediagnóstico: diagnosticar um câncer verdadeiro, mas que provavelmente nunca causaria problema durante a vida daquela pessoa. Não é um diagnóstico errado. O câncer existe. A dúvida é se ele precisava ter sido encontrado.

Na prática, dois homens podem ouvir a mesma frase: “Você tem câncer de próstata.” E, ainda assim, estar diante de doenças completamente diferentes. Um pode ter um pequeno tumor de baixo grau, com pouca chance de progressão. O outro, uma doença biologicamente agressiva. Por isso o diagnóstico de câncer é apenas o começo da conversa. Depois precisaremos responder a uma pergunta muito mais importante: que câncer é esse? Quando a resposta é um tumor de baixo risco, o caminho mais indicado costuma ser acompanhar de perto, sem tratar de imediato. É o que chamamos de vigilância ativa, e a diretriz europeia a coloca como conduta padrão para esses casos.1

Por que o câncer de próstata aparece?

Não existe uma causa única. Não conseguimos apontar um alimento, um hábito ou um acontecimento específico e afirmar: “Foi isso que causou o seu câncer.”

O desenvolvimento do câncer de próstata parece resultar da interação entre envelhecimento, genética, história familiar, ancestralidade, fatores ambientais e metabolismo. A idade é um dos fatores de risco mais consistentes do câncer de próstata. Com o passar das décadas, aumenta a oportunidade para que alterações celulares e genéticas se acumulem.

Por outro lado, genética não explica tudo. Nos Estados Unidos, homens asiáticos que migraram na primeira geração têm aproximadamente metade do risco dos descendentes de asiáticos já nascidos lá.1 Alimentação, ambiente, estilo de vida e intensidade do rastreamento provavelmente participam dessa história.

O que a sua família tem a ver com o risco de câncer de próstata?

Bastante, em algumas famílias. Mas não basta perguntar se existe câncer de próstata na família. Precisamos entender quem teve, quantas pessoas tiveram e com que idade receberam o diagnóstico.

Por exemplo, um pai diagnosticado aos 85 anos conta uma história diferente de um pai diagnosticado aos 48. Tumores que aparecem muito cedo levantam mais suspeita de predisposição hereditária.

Câncer de próstata familiar e hereditário

A diretriz europeia fala em câncer de próstata familiar quando há dois parentes de primeiro grau com a doença. Também quando há um de primeiro grau e pelo menos dois de segundo grau, do mesmo lado da família. Pensamos em câncer hereditário quando há três ou mais casos na família, câncer em três gerações seguidas, ou dois ou mais familiares diagnosticados antes dos 55 anos.1

Quando a família pesa no risco de câncer de próstata: critérios de câncer familiar e hereditário da diretriz europeia de urologia

O impacto pode ser grande. Num estudo populacional sueco, homens cujo pai e dois irmãos tinham câncer de próstata chegavam aos 65 anos com 43,9% de probabilidade de ter a doença. Na população geral, eram 4,8%. Para câncer de alto risco, a comparação era de 11,4% contra 1,4%.4

O câncer de próstata pode estar nos meus genes?

Em alguns homens, sim. Quando uma alteração genética está presente desde o nascimento e pode ser transmitida entre gerações, chamamos isso de mutação germinativa.

BRCA1 e, principalmente, BRCA2 são conhecidos pela relação com câncer de mama e de ovário, mas também estão associados ao câncer de próstata. Homens com determinadas alterações em BRCA2 têm risco de câncer de próstata de duas vezes e meia a quase cinco vezes maior. Além disso, a doença tende a ter características mais agressivas.1 Outros genes também entram nessa lista, como HOXB13, CHEK2, ATM e os da síndrome de Lynch.1

Ainda assim, predisposição não é destino. Uma mutação aumenta a probabilidade de desenvolver determinado câncer, mas não significa que o tumor vai necessariamente aparecer.

Todo homem deveria fazer teste genético?

Não. O teste tende a ter mais valor em situações selecionadas: história familiar, idade ao diagnóstico, características do tumor e doença avançada. A pergunta correta não é “existe teste genético para câncer de próstata?”. É esta: existe alguma coisa na minha história ou no meu câncer que justifique procurar uma alteração hereditária?

A ancestralidade muda o risco de câncer de próstata?

Pode mudar. Homens com ancestralidade africana vivendo em países ocidentais apresentam maior incidência e mais diagnósticos em estágios avançados. Além disso, há evidência de uma contribuição genética real.1

Mas acesso ao rastreamento, qualidade da assistência e condições socioeconômicas também pesam nos números. Há inclusive dados em doença metastática nos quais, com tratamento, não aparecem diferenças claras de sobrevida entre homens brancos, negros e hispânicos.1 Por isso, “raça” não deve ser tratada como uma variável biológica simples. No Brasil, onde a ancestralidade da maioria das pessoas é misturada, esse cuidado vale ainda mais.

Consigo diminuir a chance de o câncer de próstata aparecer?

Essa é uma das perguntas que mais escuto. E talvez uma das respostas mais frustrantes seja esta: não conhecemos hoje uma estratégia capaz de prevenir o câncer de próstata com segurança.

Alimentação, exercício e peso têm associações interessantes, mas nenhuma dieta ou tipo de exercício pode ser prescrito como prevenção comprovada do tumor.1 Na obesidade, por exemplo, alguns dados sugerem menos tumores de baixo grau e mais tumores de alto grau.1

O cigarro é o sinal mais preocupante. Numa meta-análise de estudos prospectivos, quem fumava tinha um risco cerca de 24% maior de morrer por câncer de próstata.5 Parar de fumar continua sendo uma das medidas mais importantes que um homem pode tomar pela própria saúde.

Remédios e hormônios mudam o risco de câncer de próstata?

Os dados atuais não sustentam a ideia de que repor testosterona em homens com deficiência hormonal cause câncer de próstata.1 Reposição precisa de indicação e acompanhamento, mas a frase “testosterona causa câncer de próstata” não corresponde ao conhecimento atual.

Finasterida e dutasterida reduziram em cerca de 25% os diagnósticos, quase só à custa de tumores de baixo grau.1 Em 18 anos de seguimento do principal estudo com finasterida, não houve aumento de mortalidade pela doença.6 Mesmo assim, não são recomendadas como prevenção.

Estatinas, metformina e aspirina aparecem em alguns estudos associadas a menor risco de câncer de próstata.1 No entanto, um grande estudo com 1.874 homens com câncer de próstata metastático não mostrou benefício de sobrevida ao acrescentar metformina.7 Tomar um remédio sem indicação para prevenir câncer pode criar um problema real para buscar um benefício apenas hipotético.

Associação não significa causa

A lista do que “dizem causar” câncer de próstata é enorme. A vasectomia já foi relacionada à doença, mas essa associação não se confirmou.1 Homens que relataram 21 ou mais ejaculações por mês tiveram cerca de 20% menos diagnósticos do que os que relataram quatro a sete.8 Trabalho noturno, exposição a pesticidas, HPV 16 e doença inflamatória intestinal também aparecem em algumas análises.1

Quando um estudo encontra uma associação, existem pelo menos três possibilidades. Primeiro, a exposição realmente aumenta o risco. Depois, pode existir um terceiro fator ligado às duas coisas. Por fim, os homens daquele grupo podem simplesmente fazer mais exames. A ciência raramente é tão simples quanto a manchete. O mais importante é perguntar qual é a qualidade da evidência, e se ela muda alguma decisão médica.

Depois de tudo isso, qual é o meu risco de ter câncer de próstata?

A resposta não está num único número. Saber que milhões de homens recebem o diagnóstico ajuda a compreender a dimensão da doença, mas não diz qual é o seu risco. Para isso, precisamos olhar para você.

Risco de câncer de próstata: o que pesa de fato (idade, história familiar, mutações genéticas, ancestralidade) e o que ainda é incerto (alimentação, exercício e peso, remédios, hábitos e exposições)

Sua idade. Sua história familiar, com quantos familiares tiveram câncer e em que idade. Se existe uma mutação genética conhecida na família, e qual é a sua ancestralidade. Se você já fez PSA antes. Sua saúde geral.

Existe muita coisa que vale a pena modificar para viver melhor: não fumar, manter atividade física, controlar o peso, a pressão e o diabetes. Mas hoje não conseguimos prometer que determinado alimento, suplemento, remédio ou hábito vai impedir o câncer de próstata. Isso também significa que um homem diagnosticado não deveria carregar a culpa de pensar: “Eu tive câncer porque fiz alguma coisa errada.”

Então qual é a próxima pergunta?

Você está bem. Talvez não tenha sintoma nenhum. E isso é o esperado: o câncer de próstata localizado quase nunca dá sintoma.1 Talvez tenha apenas chegado a uma determinada idade, ou descoberto que existe câncer de próstata na sua família.

A pergunta agora deixa de ser “o que causa câncer de próstata?” e passa a ser: “Estou bem. Preciso procurar esse câncer?” É aí que começa a conversa sobre rastreamento, PSA e diagnóstico precoce.

Se você tem pai, irmão ou filho com câncer de próstata, ou uma mutação conhecida na família, leve essa informação para a consulta. Diga quem teve, com que idade e quantos foram. É ela que decide quando essa conversa deve começar no seu caso. A partir dos 50 anos, essa conversa já pode ser marcada. Se você tem pai ou irmão diagnosticado antes dos 60, ou ascendência africana, ela começa aos 45. Para quem carrega mutação no BRCA2, aos 40.1


Este texto tem caráter informativo e educativo, para esclarecer dúvidas. Ele não substitui a consulta médica e nunca deve ser usado para definir uma conduta diante de uma dúvida. Cada caso precisa de avaliação individual.

Dr. Daniel Hampl · Médico · CRM-RJ 52.81807-0 · Urologia, RQE nº 19194 · Cirurgia Geral, RQE nº 19193
Atua em cirurgia robótica e no tratamento do câncer urológico. Atende na Barra da Tijuca e em Ipanema, Rio de Janeiro.
Publicado em outubro de 2026

Referências (8)
  1. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer, edição 2026, capítulos Epidemiology and aetiology, Diagnostic evaluation e Treatment. Disponível em: uroweb.org/guidelines/prostate-cancer. Acesso em: 6 out. 2026.
  2. Instituto Nacional de Câncer (INCA). INCA estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028. 4 fev. 2026. Disponível em: gov.br/inca. Acesso em: 22 set. 2026.
  3. Bell KJL, Del Mar C, Wright G, Dickinson J, Glasziou P. Prevalence of incidental prostate cancer: a systematic review of autopsy studies. International Journal of Cancer, 2015;137:1749-57. Disponível em: doi.org/10.1002/ijc.29538. Acesso em: 22 set. 2026.
  4. Bratt O, Drevin L, Akre O, Garmo H, Stattin P. Family history and probability of prostate cancer, differentiated by risk category: a nationwide population-based study. Journal of the National Cancer Institute, 2016;108(10):djw110. Disponível em: doi.org/10.1093/jnci/djw110. Acesso em: 22 set. 2026.
  5. Islami F, Moreira DM, Boffetta P, Freedland SJ. A systematic review and meta-analysis of tobacco use and prostate cancer mortality and incidence in prospective cohort studies. European Urology, 2014;66(6):1054-64. Disponível em: doi.org/10.1016/j.eururo.2014.08.059. Acesso em: 22 set. 2026.
  6. Goodman PJ, Tangen CM, Darke AK, et al. Long-term effects of finasteride on prostate cancer mortality. New England Journal of Medicine, 2019;380(4):393-4. Disponível em: nejm.org. Acesso em: 22 set. 2026.
  7. Gillessen S, Murphy L, James ND, et al. Metformin for patients with metastatic prostate cancer starting androgen deprivation therapy: a randomised phase 3 trial of the STAMPEDE platform protocol. The Lancet Oncology, 2025;26(8):1018-30. Disponível em: doi.org/10.1016/S1470-2045(25)00231-1. Acesso em: 22 set. 2026.
  8. Rider JR, Wilson KM, Sinnott JA, Kelly RS, Mucci LA, Giovannucci EL. Ejaculation frequency and risk of prostate cancer: updated results with an additional decade of follow-up. European Urology, 2016;70:974-82. Disponível em: europeanurology.com. Acesso em: 22 set. 2026.

Fase 2 de 9

Devo investigar câncer de próstata mesmo sem sentir nada?

Sim, é possível ter câncer de próstata sem sentir absolutamente nada. E também é possível ter dificuldade para urinar, e muitos outros sintomas ligados ao aumento da próstata, sem que isso signifique câncer. Essa é a mensagem principal deste texto. É dela que parte toda a discussão sobre o rastreamento do câncer de próstata.

Por isso a pergunta “devo fazer exame mesmo sem sintoma?” não tem a mesma resposta para todo homem. Hoje o Ministério da Saúde não recomenda o rastreamento do câncer de próstata em toda a população. Ainda assim, na minha posição, cada homem precisa de uma decisão individualizada sobre investigar. Ela leva em conta a sua idade, a sua família e o seu estado de saúde.

Próstata aumentada não é câncer de próstata

A próstata é uma glândula que fica logo abaixo da bexiga. Ela envolve o comecinho da uretra, que é o canal por onde a urina sai da bexiga.

Com o passar do tempo, com o nosso envelhecimento, ela pode aumentar de tamanho e causar vários sintomas urinários. A próstata também está sujeita a inflamações e infecções, que podem causar dor e desconforto. Só que nenhuma dessas condições é sinônimo de câncer.

O câncer de próstata começa quando as células da glândula passam a crescer de forma descontrolada.

Nem todo câncer de próstata é uma ameaça

Alguns tumores crescem muito lentamente e, muito provavelmente, nunca vão causar problema algum ao paciente. Uma revisão reuniu 29 estudos de autópsia, feitos em homens que morreram por outras causas. Acima dos 79 anos, havia câncer de próstata em cerca de 59% deles. Em algumas populações, esse número passou de 80%.1

O problema é que outros cânceres de próstata podem se tornar bastante agressivos, se espalhar pelo corpo e ameaçar a sua qualidade de vida e até a sua vida. Por isso descobrir um câncer de próstata logo no começo é fundamental. E, quando encontramos um, precisamos entender o que aquele câncer representa de ameaça. Para a saúde daquela pessoa específica que está fazendo os exames.

O que é o rastreamento do câncer de próstata

É comum um paciente me dizer: “Mas, doutor, eu não tenho sintoma. Por que eu tenho que fazer exame?”

Investigar uma doença em alguém sem sintoma é o que chamamos de rastreamento. O rastreamento populacional vai além. É pegar toda a população de um país ou de uma região, a partir de uma certa idade, e submetê-la a exames mesmo sem sintomas.

Por que o Brasil não recomenda o rastreamento populacional

Muitos países hoje são contra o rastreamento do câncer de próstata em toda a população, inclusive o Brasil. O Ministério da Saúde e o INCA reafirmaram essa posição em 2023. Para o homem que pede o exame, orientam uma discussão ampla sobre riscos e benefícios e uma decisão compartilhada.2

Quem defende não fazer exames de próstata leva em consideração o risco de exames desnecessários. Um PSA que sobe não é necessariamente câncer; pode ser um falso positivo. Uma ressonância com alguma alteração também pode não significar câncer, e aí temos mais um falso positivo. Na medicina, entre um falso positivo e outro, os médicos podem ir, entre aspas, “atropelando” o paciente.

No câncer de próstata, alguns exames são relativamente pouco invasivos, como o PSA e a ressonância. Mas imagina fazer uma biópsia desnecessária. Ou uma cirurgia para retirada da próstata de forma desnecessária.

O outro lado da balança

Só que, pensa comigo: encontrar um câncer de próstata quando ainda existe a oportunidade de tratar no começo é um benefício muito relevante. Tão relevante que precisamos, sim, pensar de maneira individualizada se vale a pena procurar esse câncer no seu caso específico.

O maior estudo europeu sobre o tema acompanhou mais de 162 mil homens por 23 anos. O rastreamento com PSA reduziu em 13% as mortes por câncer de próstata. Para evitar uma morte, foi preciso convidar 456 homens para o rastreamento e diagnosticar 12.3

Ao longo dos anos, também passamos a entender muito melhor a doença. Hoje sabemos que alguns cânceres não merecem um tratamento mais incisivo logo de início. Podemos fazer vigilância ativa, controlar a situação e postergar a cirurgia, a ponto de ela não acontecer ao longo da vida.

A grande diferença de um bom urologista hoje é saber separar duas coisas: buscar o exame e operar uma doença. Tratar uma pessoa e tratar um câncer.

Rastreamento do câncer de próstata: o que pesa a favor (13% menos mortes em 23 anos) e o que pesa contra (falso positivo, biópsia desnecessária, sobrediagnóstico)

A minha posição

Para mim, a decisão sobre o rastreamento do câncer de próstata deve ser individualizada. Levo em consideração a idade, o histórico familiar, a ancestralidade, a predisposição genética e o estado geral de saúde no momento. Entra aí também a análise genética, que pode seguir dois caminhos. O teste germinativo procura uma alteração herdada, presente desde o nascimento em todas as células, e pode ser feito no próprio paciente. O teste somático é diferente: ele analisa as alterações do tumor. Como quem está pensando em rastreamento ainda não tem câncer, esse teste não é feito nele, e sim no tumor de um familiar próximo que teve a doença. E, claro, as preferências do paciente, que podem mudar o peso que ele dá a riscos e benefícios.

A partir de que idade conversar sobre o rastreamento do câncer de próstata

As diretrizes internacionais recomendam conversar mais cedo com os homens de maior risco.4 Se o rastreamento do câncer de próstata for individualizado, ele deveria começar aos 50 anos para os homens sem fator de risco. Para quem tem mais chance de desenvolver a doença, a partir dos 45.

A diretriz europeia coloca nesse grupo dos 45 anos os homens com pai ou irmão diagnosticado antes dos 60 e os homens de ascendência africana. Para quem carrega mutação no gene BRCA2, ela sugere começar aos 40.4 No Brasil, a Sociedade Brasileira de Urologia, junto com as sociedades de oncologia e de radioterapia, recomenda a conversa sobre o rastreamento do câncer de próstata a partir dos 50 anos, e entre 40 e 50 nos de maior risco.5

Se existe dúvida e falta de consenso sobre a idade para começar o PSA, o mesmo se repete na hora de decidir quando parar de procurar a doença. Com a qualidade de vida e a longevidade cada vez mais saudáveis, essa discussão se torna cada vez mais desafiadora. Essa decisão precisa ser compartilhada e entendida pelo paciente e pela família, e não se ater a números fixos preconcebidos. A própria diretriz europeia aponta a expectativa de vida, e não a idade, como o principal fator para encerrar o rastreamento do câncer de próstata.4

Idade para começar o rastreamento do câncer de próstata: 40 anos com BRCA2, 45 com pai ou irmão diagnosticado antes dos 60 ou ascendência africana, 50 sem fator de risco; para parar, decisão compartilhada

O que o PSA pode dizer, e o que ele não pode

O PSA é um exame de sangue e costuma ser o primeiro passo dessa investigação. Só que PSA alto não é diagnóstico de câncer. Ele é específico da próstata, mas não do câncer, e sobe também em condições benignas.4

Então, se você chegou a este texto sobre rastreamento do câncer de próstata porque tomou um susto com o resultado que acabou de pegar: calma, respira.

Por outro lado, um PSA baixo também não é garantia absoluta de que a doença não exista. Precisamos ler o resultado junto com a sua idade e os exames anteriores. Conta muito a evolução dos seus valores de PSA ao longo do tempo, e todo o resto de uma avaliação clínica.

PSA alterado: o próximo passo não é a biópsia

Eu fico muito assustado quando, para o médico, a solução para uma alteração de valor num papel se torna o pedido de uma biópsia de próstata. A biópsia não é isenta de riscos e precisa ser indicada com o maior critério possível. Ao longo do processo, ela não só pode definir o tratamento, como ajudar em toda a estratégia cirúrgica.

Um PSA único alterado não pode ser o único dado a definir a indicação dessa biópsia. Se o seu PSA veio acima do valor normal, ou acima do seu valor historicamente normal, o ideal é repetir o exame. Assim, nenhuma decisão é tomada de forma precipitada, atropelada. Depois, avaliamos a necessidade de uma ressonância magnética antes de partir para um procedimento mais invasivo, como o toque retal ou a biópsia de próstata.

Um exemplo: o PSA que saltou de 3 para 9

Vou te dar um exemplo. Um paciente chegou até mim com o PSA cronicamente em torno de 3. De repente, o PSA saltou para 9, junto com sintomas clássicos de infecção urinária. Uma das coisas que fazem o PSA subir é a inflamação ou a infecção da próstata, que chamamos de prostatite. Na prostatite aguda, o PSA sobe em cerca de 70% dos homens e pode levar um a dois meses para voltar depois do tratamento.6

Se houver suspeita clínica de prostatite, a biópsia está contraindicada.6 E a ressonância da próstata também não deve ser feita naquele momento. Se eu pedisse uma ressonância para esse paciente, muito provavelmente ela mostraria algum foco de alteração muito parecido com o que encontramos no câncer de próstata.7 E aí a decisão sobre a biópsia ficaria confusa.

Então, eu sei que o PSA elevado assusta. Mas precisamos repetir o exame e colocá-lo num contexto clínico muito maior antes de fazer uma biópsia às pressas. O que fazer, e em que ordem, quando um exame vem alterado é o assunto do próximo capítulo.

PSA alterado: repetir e comparar com o histórico, olhar o contexto clínico e só depois ressonância e, se indicada, biópsia

E se eu tiver sintomas urinários?

Jato fraco, vontade frequente de ir ao banheiro, ardência, dificuldade de esvaziar a bexiga. Claro que esses sintomas merecem atenção e merecem avaliação. Mas geralmente não estão relacionados ao câncer de próstata: costumam vir de doenças benignas, como a hiperplasia prostática. O câncer de próstata localizado, na maior parte das vezes, não dá sintoma nenhum.4

Agora, sangue na urina, dor persistente, perda de peso e dor nas costas, aí sim. Esses sintomas podem estar relacionados a uma doença maligna num estágio um pouco mais avançado.

Dou ênfase especial ao sangue na urina. Mesmo que tenha aparecido uma única vez e sem dor, ele merece, sim, avaliação. Chamamos isso de hematúria macroscópica. E ela pode não vir de um câncer de próstata propriamente dito, mas de outro tumor ao longo do trato urinário, mais comumente na bexiga.8

Encontrei um câncer. Preciso tratar agora?

Nem todo câncer merece tratamento imediato. Dependendo das características do tumor e da pessoa, podemos acompanhar a doença de perto, com o que chamamos de vigilância ativa. Quando o tratamento é indicado, a cirurgia, a radioterapia e os medicamentos têm, sim, benefícios. Também têm possíveis efeitos sobre a qualidade de vida, que precisam ser discutidos com clareza. Os números de cada tratamento, de continência e ereção incluídos, estão no texto sobre cirurgia ou radioterapia.

A pergunta não termina em “tenho câncer”. Ela precisa continuar: qual é o risco desse câncer me dar problema? Qual é o ganho de fazer o tratamento? E quais são as consequências que eu estou disposto a aceitar para fazer esse tratamento? Essa decisão não cabe num exame, nem numa resposta de rede social. Ela precisa ser construída junto com o paciente.

O que levar para a primeira consulta

Numa primeira consulta, o urologista vai levar em consideração a sua idade e toda a sua condição clínica atual, como hipertensão e diabetes. Mas algumas informações fazem muita diferença, e vale chegar com elas em mãos:

  • os resultados anteriores de PSA, com as datas;
  • se há casos de câncer de próstata na família;
  • com que idade esses familiares receberam o diagnóstico;
  • se você ou algum desses familiares já fez teste genético, germinativo ou somático, e qual foi o resultado;
  • se possível, as características da biópsia deles.

Isso ajuda muito a transformar uma recomendação completamente genérica numa conversa específica e individualizada sobre o seu caso. Se você tem 50 anos ou mais, essa conversa sobre o rastreamento do câncer de próstata já pode ser marcada. Se tem algum fator de risco, como pai ou irmão com a doença, a partir dos 45.


Este texto tem caráter informativo e educativo, para esclarecer dúvidas. Ele não substitui a consulta médica e nunca deve ser usado para definir uma conduta diante de uma dúvida. Cada caso precisa de avaliação individual.

Dr. Daniel Hampl · Médico · CRM-RJ 52.81807-0 · Urologia, RQE nº 19194 · Cirurgia Geral, RQE nº 19193
Atua em cirurgia robótica e no tratamento do câncer urológico. Atende na Barra da Tijuca e em Ipanema, Rio de Janeiro.
Publicado em outubro de 2026

Referências (8)
  1. Bell KJL, et al. Prevalence of incidental prostate cancer: a systematic review of autopsy studies. International Journal of Cancer, 2015. DOI: 10.1002/ijc.29538. Disponível em: PMC4682465. Acesso em: 25 set. 2026.
  2. Brasil. Ministério da Saúde / Instituto Nacional de Câncer. Ministério da Saúde recomenda o não rastreamento populacional do câncer de próstata. 26 out. 2023. Disponível em: gov.br/inca. Acesso em: 25 set. 2026.
  3. Roobol MJ, et al. European Study of Prostate Cancer Screening: 23-Year Follow-up. New England Journal of Medicine, 2025. DOI: 10.1056/NEJMoa2503223. Disponível em: nejm.org. Acesso em: 25 set. 2026.
  4. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer, edição 2026, capítulo Diagnostic evaluation (seções 5.1.3 e 5.2). Disponível em: uroweb.org. Acesso em: 6 out. 2026.
  5. Sociedade Brasileira de Urologia, Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Sociedade Brasileira de Radioterapia. Posicionamento sobre o rastreamento do câncer de próstata. 2023. Disponível em: sbradioterapia.com.br. Acesso em: 25 set. 2026.
  6. Coker, Dierfeldt. Acute Bacterial Prostatitis: Diagnosis and Management. American Family Physician, 15 jan. 2016. Disponível em: aafp.org. Acesso em: 6 out. 2026.
  7. Panebianco V, Giganti F, Kitzing YX, Cornud F, Campa R, De Rubeis G, Ciardi A, Catalano C, Villeirs G. An update of pitfalls in prostate mpMRI: a practical approach through the lens of PI-RADS v. 2 guidelines. Insights into Imaging, 2018. DOI: 10.1007/s13244-017-0578-x. Disponível em: doi.org. Acesso em: 6 out. 2026.
  8. European Association of Urology. EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer, capítulo Diagnosis, seção 5.2. Disponível em: uroweb.org. Acesso em: 6 out. 2026.

Fase 3 de 9

Apareceu uma suspeita de câncer de próstata: isso significa câncer?

Se um exame de rastreamento deixou uma pulga atrás da orelha, o próximo passo não é correr para uma biópsia. Uma suspeita de câncer de próstata pede outra coisa primeiro: parar, respirar e analisar tudo com calma. Olhar os exames anteriores, pensar em repetir o exame que veio alterado e comprovar a alteração.

Isso porque o PSA, o toque retal e a ressonância magnética podem dar resultados falso positivos. Um exame mostrando a possibilidade de câncer não é um diagnóstico certeiro e fechado da doença. Neste texto, explico o que cada um deles pode e não pode dizer, e como decidir o que vem depois.

Se você ainda não leu, vale começar pelos capítulos anteriores. O primeiro explica o que é o câncer de próstata e quem tem mais risco. O segundo trata dos dilemas do rastreamento em homens sem sintomas.

Os três exames que podem levantar a suspeita de câncer de próstata

Ao longo dos anos, o rastreamento foi feito classicamente com dois exames: o PSA e o toque retal. O PSA é um exame de sangue. Com o tempo, os dois sofreram muitas críticas, com várias publicações contrárias à realização de ambos. Hoje, em 2026, um terceiro exame vem entrando cada vez mais no arsenal do urologista: a ressonância magnética multiparamétrica da próstata.

PSA: não existe número mágico

Hoje a gente não busca um número mágico de PSA a partir do qual o câncer passa a ser altamente suspeito. Digo isso porque o valor de corte do PSA já mudou muito ao longo dos anos. Quando me formei urologista, considerávamos elevado o PSA acima de 2,5. Atualmente, o número 4 funciona como um sinal de alerta. Mas não é necessariamente um número que nos obrigue a tomar uma atitude mais incisiva.

A diretriz europeia de urologia vai na mesma linha. Segundo ela, não existe um padrão aceito para definir o que é um PSA anormal. Quanto mais alto o valor, maior a chance de câncer, e isso vale ao longo de toda a escala.1 Um grande estudo americano fez biópsia em homens que mantiveram o PSA abaixo de 4. Com PSA sempre abaixo de 0,5, encontrou câncer em 6,6% deles. Com PSA entre 3,1 e 4, em 26,9%.2

Toque retal: criticado, mas longe de ser abandonado

Vários trabalhos mostraram a fragilidade do toque retal. Médicos diferentes dão laudos diferentes para o mesmo paciente. Num estudo com 116 homens examinados por mais de um urologista, a concordância, descontado o acaso, foi só razoável.3 E, acredite se quiser, o mesmo médico pode dar laudos diferentes para o mesmo paciente.4

Então, sim, o toque retal é passível de críticas. Mas, na minha opinião, ninguém deveria abandoná-lo. Se a gente reduzir a medicina a números, o toque com certeza contribuiu menos do que eu gostaria. Só que não foi pequena a parcela de pacientes que teve o diagnóstico firmado a partir de um toque retal. Ou, pelo menos, que teve a investigação iniciada por ele. A diretriz europeia estima que cerca de 18% dos cânceres de próstata aparecem apenas pelo toque alterado, qualquer que seja o PSA.1

Também conta o paciente que fez uma cirurgia melhor direcionada a partir do exame físico. Um toque alterado segue sendo um forte indicador de doença que já passou dos limites da próstata.1

Ressonância magnética: a mamografia do homem?

A ressonância magnética é, sim, um exame muito interessante para avaliar a próstata. Há médicos no mundo que defendem que ela seja a mamografia do homem. A mulher tem indicação de mamografia para rastrear o câncer de mama. Do mesmo jeito, há urologistas que defendem que o homem faça ressonância da próstata anualmente para rastrear o câncer de próstata. É uma opinião pessoal de alguns médicos, e não há embasamento na literatura para isso.

Só que a gente já discutia o custo-benefício do rastreamento com o PSA e o toque. O primeiro é um exame simples de sangue; o segundo, um exame físico sem custo. Imagina as críticas quando a ressonância, um exame de alto custo, entrar de forma mais regular. Na Suécia, um estudo com cerca de 18 mil homens usou a ressonância só depois de um PSA a partir de 3. Fazer biópsia apenas das lesões vistas na ressonância reduziu pela metade o diagnóstico de cânceres sem importância clínica.5

Exame alterado: suspeita de câncer de próstata não é diagnóstico

Todos esses exames podem dar resultados falso positivos. O que isso significa? Um PSA pode vir alterado, até muito alto, e não significar câncer. Uma infecção, por exemplo, pode levar o PSA acima de 100, e ele pode demorar até um ano para normalizar.1 Um toque retal pode mostrar um nódulo e, mesmo assim, não estarmos falando de câncer.

Os três exames que levantam a suspeita de câncer de próstata e seus limites: PSA pode subir sem câncer, nódulo no toque nem sempre é câncer, inflamação pode parecer câncer na ressonância. Só a biópsia confirma

A ressonância também tem a sua zona cinzenta. A prostatite, que é uma inflamação da próstata, pode gerar laudos muito parecidos com os de câncer.6 Nas lesões classificadas como intermediárias (PI-RADS 3), a biópsia encontra câncer relevante em cerca de 20% dos casos.1

Então um PSA, um toque ou uma ressonância com suspeita de câncer de próstata não é um diagnóstico certeiro e fechado da doença.

Como um urologista lê um PSA alterado

Diante de uma suspeita de câncer de próstata, é muito importante ter um urologista especializado como médico de referência. É ele quem vai opinar sobre o resultado do PSA. Hoje existem vários métodos de avaliação desse exame, além de uma foto do momento.

O urologista comprometido com o paciente olha para o longo prazo, ou seja, para o histórico do seu PSA. Depois, refina essa análise com outros dados:

  • relação entre o PSA total e o PSA livre;
  • densidade do PSA, isto é, o valor do PSA em relação ao tamanho da sua próstata;
  • PSA esperado para a sua idade;
  • preparo: se o exame foi feito nas melhores condições possíveis.

Quanto maior a densidade do PSA, maior a chance de um câncer relevante.1 Também conta o que você toma. Remédios usados para a próstata aumentada, como finasterida e dutasterida, reduzem o PSA pela metade. Quem usa precisa avisar o urologista, porque o valor do laudo parece mais tranquilo do que é.1

Sobre o preparo: você recebeu orientação para evitar exercício físico no período antes da coleta? Num estudo com 129 ciclistas acima dos 50 anos, uma pedalada longa elevou o PSA em média 9,5%. Por isso, os autores sugerem evitar bicicleta e ejaculação por 24 a 48 horas antes do exame.7 Além disso, a diretriz europeia pede que o PSA repetido seja colhido no mesmo laboratório. E sem ejaculação, manipulação da próstata ou infecção urinária.1

Nódulo no toque, lesão na ressonância: quanto isso pesa

O toque retal mostrando um nódulo tem valor muito limitado para definir se a doença está presente ou não. Com PSA até 4, um toque suspeito corresponde de fato a câncer em 5% a 30% dos casos.1

A ressonância magnética, idealmente, entra quando o PSA e/ou o toque já levantaram a suspeita de câncer de próstata.1 É o mesmo caminho do estudo sueco: a ressonância vem depois de uma alteração, e não no lugar dela.

Chance de a biópsia encontrar câncer clinicamente relevante por PI-RADS da ressonância: 6% no PI-RADS 1 e 2, 20% no 3, 55% no 4 e 83% no 5

O PSA normal e o nódulo no toque: um caso do meu consultório

O paciente mais jovem que operei com câncer de próstata tinha 38 anos. Ele chegou ao consultório muito assustado, porque um amigo, uma pessoa próxima da família, tinha sido diagnosticado com câncer de próstata. E ele queria porque queria fazer o PSA, totalmente fora de protocolo. Fora pela idade, e fora pelo componente familiar, já que quem estava com a doença era um amigo, e não um parente.

Respeitando o desejo dele, pedimos o PSA. Na consulta de retorno, ele veio com um PSA de 1,5. É um valor completamente normal no papel. No entanto, para alguém tão jovem, é um valor que pode ser considerado diferente, ou pelo menos um sinal de alerta.

Então propus o exame do toque. E ele, de pronto, foi radicalmente contra: não ia fazer, porque o PSA estava normal. Expliquei que aquele PSA, apesar de estar dentro da faixa de referência, precisava ser lido em relação à idade dele. E que, já que ele tinha feito o exame de sangue por um medo a princípio injustificado, eu recomendava que fizesse também o toque.

Não deu outra. No toque, senti um nódulo grosseiro na próstata. Ele tinha um daqueles cânceres de próstata raros, mas agressivos, que progridem tão rápido que a elevação do PSA não acompanha a doença. Um câncer agressivo com PSA normal, e o diagnóstico partiu do toque retal. A diretriz europeia reconhece essa exceção: raramente, um homem pode ter câncer de próstata mesmo com PSA baixo.1

A medicina não é matemática

Não posso usar um caso raro como esse para levantar uma bandeira de defesa absoluta do toque. Conto esse caso para deixar claro que a medicina não é matemática. Mesmo que a gente considere a matemática como ponto fundamental, sempre existe nas curvas de estatística o que chamamos de outlier. É aquele indivíduo que não respeita a fórmula que calcula o risco. Hoje esse paciente está curado de uma doença que, se não fosse diagnosticada naquele momento, muito provavelmente tiraria a vida dele num futuro próximo.

Nem todo câncer de próstata precisa ser caçado às pressas

Atualmente, nós, urologistas que estudamos o câncer de próstata, tentamos focar ao máximo nos tumores que possam ameaçar a vida do paciente. Sabemos que muitos homens vão ter câncer de próstata ao longo da vida. Quando o paciente chega perto dos 90 anos, essa estatística é assustadora. Estudos de autópsia avaliaram homens que morreram de outras causas. Acima dos 79 anos, havia câncer de próstata em cerca de 59% deles.8

Mas isso não significa que todo câncer que aparece precise de um tratamento mais incisivo, como cirurgia ou radioterapia.

A vigilância ativa é uma modalidade de tratamento que reconhece a presença da doença. Ela entende que a biologia e o comportamento de alguns tumores permitem ao paciente conviver com eles por anos. E viver com boa qualidade de vida, sem os riscos e efeitos colaterais de qualquer tratamento para o câncer de próstata.1

O próximo passo diante de uma suspeita de câncer de próstata

Então, se algum exame de rastreamento deixar uma pulga atrás da orelha, o próximo passo não é partir direto para uma biópsia. Diante de uma suspeita de câncer de próstata, a gente precisa:

O próximo passo diante de uma suspeita de câncer de próstata: exame alterado, rever o histórico, repetir o PSA, ressonância e, só se a suspeita se mantiver, biópsia
  • parar e refletir com calma;
  • analisar todos os exames anteriores;
  • pensar na possibilidade de repetir o exame que veio alterado e comprovar a alteração.

A diretriz europeia sugere repetir o PSA depois de quatro semanas, quando ele vem entre 3 e 10 e o toque é normal. Em cerca de um em cada cinco homens, o valor volta para baixo de 3 em um a dois meses.1

Se a alteração se confirmar e a ressonância mantiver a suspeita, aí sim a biópsia entra. Ela é o único exame que confirma o câncer, e a forma de fazê-la muda o valor do resultado.1 Explico isso no próximo capítulo.

O que a gente quer evitar é uma correria desenfreada por diagnósticos. Muitas vezes, essa correria traz mais angústia e estresse psicológico do que ganho objetivo para a vida do paciente a longo prazo.

Se o seu exame trouxe uma suspeita de câncer de próstata, marque a consulta com o urologista. Na maioria dos casos, ela deve acontecer a tempo de repetir o PSA em cerca de quatro semanas, no mesmo laboratório. Leve todos os resultados anteriores, com as datas. Sangue na urina ou dor nos ossos não esperam esse prazo; falo desses sinais no capítulo sobre rastreamento.


Este texto tem caráter informativo e educativo, para esclarecer dúvidas. Ele não substitui a consulta médica e nunca deve ser usado para definir uma conduta diante de uma dúvida. Cada caso precisa de avaliação individual.

Dr. Daniel Hampl · Médico · CRM-RJ 52.81807-0 · Urologia, RQE nº 19194 · Cirurgia Geral, RQE nº 19193
Atua em cirurgia robótica e no tratamento do câncer urológico. Atende na Barra da Tijuca e em Ipanema, Rio de Janeiro.
Publicado em outubro de 2026

Referências (8)
  1. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer. Edição 2026. Capítulo 5 (Diagnostic evaluation) e seção 6.2.1 (Active surveillance). Disponível em: Capítulo 5: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/diagnostic-evaluation e Seção 6.2.1: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/treatment. Acesso em: 7 out. 2026.
  2. Thompson IM, Pauler DK, Goodman PJ, et al. Prevalence of prostate cancer among men with a prostate-specific antigen level ≤4.0 ng per milliliter. N Engl J Med. 2004;350:2239-46. DOI: 10.1056/NEJMoa031918. Acesso em: 30 set. 2026.
  3. Smith DS, Catalona WJ. Interexaminer variability of digital rectal examination in detecting prostate cancer. Urology. 1995;45(1):70-4. DOI: 10.1016/S0090-4295(95)96812-1. Acesso em: 30 set. 2026.
  4. Borde T, Varble NA, Kenigsberg A, et al. Digital rectal exam vs. electronic “digitized” prostate exam. BMC Urol. 2026;26:2. DOI: 10.1186/s12894-025-01936-y. Acesso em: 30 set. 2026.
  5. Hugosson J, Månsson M, Wallström J, et al. Prostate cancer screening with PSA and MRI followed by targeted biopsy only. N Engl J Med. 2022;387:2126-37. DOI: 10.1056/NEJMoa2209454. Acesso em: 30 set. 2026.
  6. Panebianco V, Giganti F, Kitzing YX, et al. An update of pitfalls in prostate mpMRI: a practical approach through the lens of PI-RADS v. 2 guidelines. Insights Imaging. 2018. DOI: 10.1007/s13244-017-0578-x. Acesso em: 30 set. 2026.
  7. Mejak SL, Bayliss J, Hanks SD. Long distance bicycle riding causes prostate-specific antigen to increase in men aged 50 years and over. PLoS One. 2013. DOI: 10.1371/journal.pone.0056030. Acesso em: 30 set. 2026.
  8. Bell KJL, et al. Prevalence of incidental prostate cancer: a systematic review of autopsy studies. Int J Cancer. 2015. DOI: 10.1002/ijc.29538. Acesso em: 30 set. 2026.

Fase 4 de 9

Biópsia de próstata: qual é a melhor forma de fazer?

Se o seu PSA, o toque e a ressonância apontam com força para um câncer de próstata, o próximo passo é a biópsia de próstata. Nenhum tratamento para o câncer de próstata começa sem a comprovação, no microscópio, de que a doença está ali. E essa comprovação vem sempre da análise de um pedaço do tecido da glândula.1

Só que não existe uma biópsia única. Ela pode ser feita pelo reto ou pela pele do períneo, guiada ou não pelas imagens da sua ressonância. E os protocolos variam de um serviço para outro. Cada uma dessas escolhas muda o valor do resultado, inclusive quando ele vem negativo.

Por que não dá para tirar a próstata, olhar e devolver

A próstata fica no interior da pelve, logo abaixo da bexiga e junto do reto. Não temos como retirar a próstata inteira para estudar o tecido e, caso a análise venha benigna, devolver o órgão para o mesmo lugar.

Parece piada o que eu estou falando, mas não é. É uma dúvida muito comum, inclusive em pacientes com bastante conhecimento sobre saúde e anatomia.

Já ouvi muitas versões dessa pergunta. Um paciente quis saber por que a gente não abre, examina a próstata e, se houver doença, tira; se não houver, fecha a pele. Outros perguntam: se o PSA, o toque e a ressonância já estão dizendo que é câncer, por que não tirar a próstata logo, sem biópsia? E há casos que mostram bem a ansiedade que o risco do câncer de próstata traz. Um paciente, entrando na idade de risco e com o histórico familiar que tinha, me perguntou se não poderia fazer uma retirada preventiva da próstata.

Já existem protocolos de pesquisa avaliando a retirada da próstata sem biópsia, apenas com os dados do PSA, do toque, da ressonância e do PET-CT de PSMA. Mas, hoje, no Brasil, não há espaço legal para fazer esse procedimento sem biópsia. Também não há, na literatura mundial, dados que justifiquem retirar a próstata de forma preventiva. Pelo contrário: a cirurgia traz complicações em potencial, e todo o nosso esforço ao longo dos anos tem sido para evitar operações desnecessárias.

Por isso a biópsia excisional, aquela que retira a lesão inteira, não é uma opção aqui. Temos que pensar na melhor estratégia para uma biópsia incisional, ou pontual. Ou seja, retirar pequenos fragmentos desse órgão tão escondido do trato geniturinário masculino.

Na medicina, nada é zero ou 100%

Faço questão de reforçar: todos os passos da investigação são fundamentais para definir a situação real da melhor maneira possível. E digo “da melhor maneira possível” porque nada na medicina é zero ou 100%. Certeza é uma palavra muito difícil de usar na medicina. Mais difícil ainda no tratamento das doenças da próstata.

O manejo do câncer de próstata precisa fazer uma balança interessante para o paciente no manejo das incertezas. Cada exame que deixa uma lacuna em aberto desenha, lá na frente, um cenário pobre de informação para ajudar o médico a decidir.

Então o PSA precisa ser feito da melhor maneira possível. O toque, com o médico mais treinado possível. A ressonância, com a melhor máquina e o melhor radiologista possível. Na hora de decidir sobre a biópsia de próstata, essa máxima segue valendo.

A biópsia transretal: do dedo ao ultrassom

Posição da próstata logo abaixo da bexiga e encostada no reto, o que define os caminhos da biópsia de próstata

A maneira clássica de fazer a biópsia de próstata é pela via transretal. A próstata está tão encostada na parede do reto que conseguimos tocá-la com o dedo. É natural, então, pensar nesse caminho para chegar à glândula e retirar amostras para a análise histopatológica.

Durante muito tempo, inclusive, a biópsia foi guiada pelo próprio toque. O médico palpava a próstata e inseria a agulha através da parede do reto, usando o dedo como guia para coletar os fragmentos.

Depois, o ultrassom passou a guiar o posicionamento e o disparo da agulha. A biópsia guiada por ultrassom transretal ainda é o método mais usado nos principais serviços do mundo que investigam o câncer de próstata.

O mesmo exame pode ser melhor ou pior

Mesmo dentro da via transretal, existem várias nuances que fazem o exame ser melhor ou pior. Cada serviço tem o seu protocolo de preparo, de antibiótico preventivo, de analgesia e de anestesia local. A quantidade de fragmentos coletados e a forma de organizar essa coleta também contam. A diretriz europeia considera 12 fragmentos o mínimo para uma biópsia sistemática.1 Tudo isso impacta, sim, a interpretação final, caso algum desses fragmentos mostre câncer.

A biópsia dói? Com uma boa anestesia, pouco. A diretriz europeia recomenda o bloqueio anestésico ao redor da próstata, guiado pelo ultrassom. Ele funciona tanto na via transretal quanto na transperineal.1 Numa comparação citada pela própria diretriz, a via transperineal doeu mais, mas o estudo não informa que anestesia foi usada.1

Eu, particularmente, indico a biópsia de próstata com anestesia local sob sedação. O paciente dorme durante o exame e não vivencia nem guarda a lembrança de um procedimento que muitos homens consideram desagradável. É possível fazer a biópsia sem sedação, mas, na minha opinião, é menos confortável.

Biópsia de próstata por fusão de imagem

Biópsia de próstata por fusão de imagem: a lesão marcada na ressonância guia a agulha no ultrassom

Hoje conseguimos diagnosticar cânceres de próstata muito pequenos, muito por causa da ressonância magnética. Na minha prática, já vi a ressonância apontar lesões que comprometiam cerca de 2 ou 3 milímetros da glândula. E a mesma ressonância multiparamétrica feita durante a sua investigação pode ajudar na hora de procurar a área suspeita.

É o que chamamos de fusão de imagem. O aparelho do médico roda um software que junta as imagens do ultrassom com as imagens da ressonância gravadas no seu CD. Guiado por essa fusão, o médico consegue posicionar a agulha em áreas bem pequenas, suspeitas de câncer, dentro da próstata.

Num estudo com 500 homens, começar pela ressonância e mirar a agulha nas áreas suspeitas funcionou melhor que a biópsia padrão. Encontrou mais tumores relevantes (38% contra 26%) e menos tumores sem importância clínica (9% contra 22%). E 28% dos homens nem precisaram de biópsia.2

Biópsia transperineal: a agulha não passa pelo reto

Biópsia de próstata transretal e transperineal lado a lado, com internação por infecção em 30 dias de 2,0% e 0,6%

Um pouco mais evoluída que a transretal, a biópsia transperineal tem se transformado no padrão-ouro, principalmente nos países economicamente mais fortes. O ultrassom continua sendo feito pelo reto. A diferença é que a agulha entra pela pele do períneo, a região entre o escroto e o ânus.

A principal vantagem está no risco de infecção. Sabemos que o reto é contaminado por material fecal. Evitar essa via e dar preferência à pele do períneo diminui o risco de infecção e evita o sangramento pelo reto.

Um registro nacional sueco acompanhou mais de 31 mil homens depois da biópsia de próstata. Entre os que fizeram a via transretal, 2,0% foram internados por infecção em até 30 dias. Entre os que fizeram a transperineal, foram 0,6%.3 Uma revisão de 10 ensaios randomizados, com 4.188 biópsias, encontrou 77% menos internações por infecção com a via transperineal.4

O que esperar depois da biópsia de próstata

Depois da biópsia, é comum ver sangue na urina e no esperma. Quase sempre é leve e passa sozinho. Até um em cada quatro homens tem dificuldade passageira para urinar, e menos de 2 em cada 100 chegam a não conseguir urinar. A infecção é a complicação que mais leva à internação.5 Febre ou não conseguir urinar depois da biópsia pedem atendimento no mesmo dia.

E no Brasil?

Infelizmente, no Brasil, a população que depende do SUS dificilmente tem acesso a uma biópsia transperineal. Quando muito, tem acesso a uma razoável biópsia transretal.

Para quem tem plano de saúde, o cenário não fica muito diferente. Os planos seguem as regras da ANS e são obrigados a custear os procedimentos que estão no rol da agência. A biópsia por fusão de imagem com ressonância ainda não está nesse rol. Por isso é muito difícil o plano custear uma biópsia, mesmo transretal, quando a fusão de imagem é solicitada.

Existem exceções reconhecidas pela Justiça, mas com critérios restritos.6

Já tive pacientes com a biópsia por fusão negada. Alguns não conseguiram que o plano pagasse, apesar dos meus relatórios explicando a indicação do procedimento. Outros entraram na Justiça e conseguiram que o plano arcasse com os custos.

Biópsia negativa: dá para comemorar?

Se a biópsia vier negativa, claro que é motivo de comemoração, e isso deve, sim, entrar na conta. Mas, depois de tudo o que expliquei, não é raro eu não conseguir passar a tranquilidade que o paciente gostaria. Isso acontece quando leio o resultado de uma biópsia não tão bem feita, ou que não seguiu os melhores padrões do procedimento.

A biópsia pode dar um falso negativo. Ela vem negativa para câncer, mas a doença está lá. Só não foi encontrada porque as agulhas colheram tecido de uma região diferente daquela em que o câncer está crescendo.

Num estudo britânico com 576 homens, a biópsia transretal sistemática foi comparada com um mapeamento completo da próstata. Ela encontrou só 48% dos cânceres clinicamente relevantes que estavam ali.7

Quando a suspeita continua depois de uma biópsia negativa, a ressonância volta a ser a melhor aliada. Um estudo acompanhou 152 homens que já tinham uma biópsia negativa. Neles, a biópsia guiada pela ressonância encontrou mais que o dobro de cânceres relevantes do que a biópsia sistemática: 34% contra 16%.1

O objetivo não é encontrar um câncer

De novo: o mais importante na investigação do câncer de próstata não é encontrar um câncer. O meu maior objetivo nesses exames é ser o mais minucioso possível e deixar a menor quantidade de lacunas em aberto. Assim, quando um laudo tão desafiador quanto o de câncer de próstata aparecer, teremos informação suficiente. Suficiente para entender se existe ou não a necessidade de um tratamento mais incisivo, como uma radioterapia ou uma prostatectomia.

Antes de marcar a sua biópsia de próstata

Vale chegar à consulta sabendo perguntar:

  • por qual via a biópsia será feita, transretal ou transperineal;
  • se as imagens da sua ressonância vão guiar a agulha, com fusão de imagem;
  • quantos fragmentos serão colhidos.

No dia, leve o CD e o laudo da ressonância. A sua biópsia de próstata já foi feita e veio negativa, mas a suspeita continua alta? Leve o laudo dela e a ressonância para a consulta. É ali que se decide se aquele resultado fecha a lacuna ou não.


Este texto tem caráter informativo e educativo, para esclarecer dúvidas. Ele não substitui a consulta médica e nunca deve ser usado para definir uma conduta diante de uma dúvida. Cada caso precisa de avaliação individual.

Dr. Daniel Hampl · Médico · CRM-RJ 52.81807-0 · Urologia, RQE nº 19194 · Cirurgia Geral, RQE nº 19193
Atua em cirurgia robótica e no tratamento do câncer urológico. Atende na Barra da Tijuca e em Ipanema, Rio de Janeiro.
Publicado em outubro de 2026

Referências (7)
  1. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer. Edição 2026, capítulo Diagnostic evaluation. Arnhem: EAU, 2026. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/diagnostic-evaluation. Acesso em: 9 out. 2026.
  2. Kasivisvanathan V, Rannikko AS, Borghi M, et al. MRI-targeted or standard biopsy for prostate-cancer diagnosis. N Engl J Med. 2018;378:1767-77. doi:10.1056/NEJMoa1801993. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMoa1801993. Acesso em: 30 set. 2026.
  3. Bonnedahl J, Lundström KJ, Lampa E, et al. Risk of infectious complications after transperineal prostate biopsy compared to transrectal biopsy: nationwide population-based cohort study in Sweden. Scand J Urol. 2026;61. doi:10.2340/sju.v61.45537. Disponível em: https://doi.org/10.2340/sju.v61.45537. Acesso em: 30 set. 2026.
  4. Stangl FP, Day E, Vallée M, et al. Infectious complications after transrectal versus transperineal prostate biopsy: a systematic review and meta-analysis. Eur Urol Focus. 2026;12(2):275-83. doi:10.1016/j.euf.2025.07.005. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.euf.2025.07.005. Acesso em: 30 set. 2026.
  5. Loeb S, Vellekoop A, Ahmed HU, et al. Systematic review of complications of prostate biopsy. Eur Urol. 2013;64(6):876-92. doi:10.1016/j.eururo.2013.05.049. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.eururo.2013.05.049. Acesso em: 9 out. 2026.
  6. Supremo Tribunal Federal (Plenário). Ação Direta de Inconstitucionalidade 7.265/DF. Julgada em 18 set. 2025. Disponível em: LexML. Acesso em: 30 set. 2026.
  7. Ahmed HU, El-Shater Bosaily A, Brown LC, et al. Diagnostic accuracy of multi-parametric MRI and TRUS biopsy in prostate cancer (PROMIS): a paired validating confirmatory study. Lancet. 2017;389(10071):815-22. doi:10.1016/S0140-6736(16)32401-1. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(16)32401-1. Acesso em: 30 set. 2026.

Fase 5 de 9

Preciso tratar o câncer de próstata? Como se decide entre vigiar e tratar

Nem todo câncer de próstata precisa ser tratado assim que é descoberto. Para saber se você precisa tratar o câncer de próstata, a gente monta um quebra-cabeça com três peças: o quanto a doença é agressiva na biópsia, até onde ela chegou no corpo e como está a sua saúde como um todo. Só com as três na mesa dá para decidir entre vigiar, operar, fazer radioterapia ou seguir outro caminho.

As três peças da decisão de tratar câncer de próstata: a agressividade na biópsia, o estadiamento e a saúde do paciente

A pergunta que guia tudo é uma só: o câncer com o qual estamos lidando ameaça a sua vida ou a sua qualidade de vida a curto ou médio prazo? Se a resposta for sim, o tratamento está indicado. Se a resposta for não, o câncer não oferece risco à sua vida nem à sua qualidade de vida nos próximos anos. Aí podemos observar de forma vigilante.

A palavra câncer pesa mais do que deveria

Ao longo do tempo, o tratamento do câncer evoluiu bastante. No entanto, essa palavra ainda carrega o peso de décadas de frustração e de tratamentos extremamente agressivos, muitas vezes infrutíferos. Por isso, no nosso inconsciente coletivo, continuamos associando a palavra câncer à palavra morte.

O câncer de próstata é um daqueles em que tudo mudou, e mudou muito nos últimos anos. Mudou ao ponto de sabermos que o paciente tem câncer e, mesmo assim, definirmos para ele um tratamento vigilante.

Vigilância ativa: devo, não nego, pago quando puder

A vigilância ativa é quase o velho ditado: devo, não nego, pago quando puder. Tirando o trocadilho de lado, ela quer dizer “sei que tenho a doença, mas só vou fazer um tratamento quando ele for realmente necessário”. Ou seja, nem todo homem com esse diagnóstico precisa tratar o câncer de próstata de imediato. Na diretriz europeia, a vigilância é o tratamento padrão para o câncer de próstata de baixo risco.1

E ela é segura. Nos grandes grupos de homens acompanhados em vigilância ativa, de 98% a 100% não morreram do câncer de próstata em dez anos. Mais de um terço precisou mudar de rota no caminho, e a maioria desses seguiu para um tratamento curativo. É para isso que serve o “ativa”.1

Quando é preciso tratar o câncer de próstata: o câncer clinicamente significativo

Para concluir se você precisa ou não tratar o câncer de próstata, precisamos entender se ele é clinicamente significativo. Em outras palavras, ele ameaça a sua vida ou a sua qualidade de vida nos próximos anos?

Montar esse quebra-cabeça não é fácil. Ele precisa de uma análise extremamente especializada, feita por um urologista dedicado ao câncer urológico ou por um oncologista clínico com a mesma especialização.

Eu não recomendo que a definição entre tratar ou não tratar, e com qual técnica, fique com urologistas generalistas ou com oncologistas de outras áreas. O motivo é que a forma de classificar o risco dessa doença vem mudando extremamente rápido nos últimos anos.

Duas situações do meu consultório

Já passei por duas situações desconfortáveis no consultório. Ambas precisaram ser encaradas de frente, pelo bem-estar do paciente.

Na primeira, o paciente chegou decidido pela cirurgia robótica. Ele já vinha com a ideia pré-concebida de que a cirurgia seria o melhor para ele e me encontrou pelas redes sociais pedindo para agendar a operação. No entanto, o estadiamento dele indicava que a vigilância ativa era o melhor caminho. Antes de discutir como operar, era preciso discutir se operar. E lá se vão 11 anos em vigilância ativa, com duas biópsias negativas para câncer nesse período.

Na segunda, o paciente não seguiu as minhas recomendações sobre o tipo de biópsia e o local para fazê-la. Tudo indicava que iríamos nos deparar com uma doença agressiva: o PSA, o toque e a ressonância apontavam todos na mesma direção. Mas a biópsia foi de péssima qualidade e apontou para o tratamento vigilante. Pela experiência que adquiri ao longo de anos tratando pacientes com câncer de próstata, ficou claro que aquela biópsia tinha subestimado a situação. Alguns meses depois, repetimos a biópsia da maneira ideal e, nesse caso, felizmente, identificamos uma doença agressiva.

Claro que não torço pelo mal alheio, muito pelo contrário. Digo felizmente porque, a partir dali, sabíamos com o que realmente estávamos lutando. Imagine não fazer nenhum tratamento para uma doença agressiva. Se tivesse seguido pela vigilância, a doença continuaria crescendo, e talvez só a descobríssemos quando já não fosse mais curável.

Escala de Gleason: por que ela confunde tanto

Pra você ter uma ideia, a principal escala de gravidade, chamada escala de Gleason, é confusa. Ela é a soma de dois números, cada um de 1 a 5. Então, em tese, o total pode ir de 2 a 10.

Antigamente, operavam-se pacientes com Gleason 2, 3, 4 e 5. Hoje, depois de várias revisões feitas por patologistas e especialistas em câncer de próstata, isso mudou. Esses somatórios sequer aparecem mais em laudos de biópsia positivos para câncer.2 Ou seja, na prática a escala de Gleason vai de 6 a 10.

Como ela é uma soma, as combinações possíveis são 3 + 3, 3 + 4, 4 + 3, 4 + 4, 3 + 5, 5 + 3, 4 + 5, 5 + 4 e 5 + 5.

3 + 4 não é a mesma coisa que 4 + 3

Já deu pra perceber que existe uma dificuldade a mais, não deu? Como assim 3 + 4 e 4 + 3? As duas somas dão 7.

Pois é. Na biópsia, o Gleason soma dois números: o do padrão de células mais frequente e o do padrão mais alto encontrado, mesmo que ele apareça em pouca quantidade.3 Quanto maior o número, maior a alteração que aquela célula apresenta e maior a gravidade. Num 3 + 4, a maioria das células é classificada como 3, mas existe uma minoria classificada como 4. O motivo da regra é que, se a agulha pegou um pouco de câncer de grau alto, provavelmente existe mais dele dentro da próstata.3

Seguindo essa lógica, fica mais fácil entender que um Gleason 7 (3 + 4) é menos grave do que um Gleason 7 (4 + 3). Quando o 4 vem na frente, as células 4 são as mais frequentes, e estamos lidando com uma doença mais agressiva.

Um estudo acompanhou mais de 20 mil homens operados. Quando a biópsia era 3 + 4, o risco de o câncer voltar depois da cirurgia foi 1,9 vez o do Gleason 6. Já no 4 + 3, foi 5,1 vezes.4

ISUP: a escala que tenta acabar com a confusão

Eu sei que é confuso. Para resolver isso, existe um esforço internacional para mudar a classificação. A escala nova se chama ISUP, também conhecida como grupo de grau.2 Nela, a lógica fica direta: 1 é o tumor menos agressivo, 5 é o mais agressivo.

GleasonISUP (grupo de grau)
6 (3 + 3)1
7 (3 + 4)2
7 (4 + 3)3
8 (4 + 4, 3 + 5 ou 5 + 3)4
9 ou 10 (4 + 5, 5 + 4 ou 5 + 5)5
Correspondência entre a escala de Gleason e os grupos ISUP do câncer de próstata, do grupo 1 ao grupo 5
Do Gleason ao ISUP: quanto maior o grupo, mais agressivo o tumor.

Até onde a doença chegou: o estadiamento

Além da classificação baseada na biópsia, precisamos entender em que momento da evolução natural da doença estamos no diagnóstico. A doença está restrita à próstata, ou já tenta extravasar os limites do órgão? As vesículas seminais foram comprometidas? Algum linfonodo da região, algum órgão vizinho ou à distância, ou até os ossos?

Resumindo, a doença está limitada à próstata ou está avançada?

Os exames que montam essa parte do quebra-cabeça

Um deles já deve ter sido feito antes da sua biópsia, e espero que sim: a ressonância multiparamétrica da próstata. Se você leu o capítulo sobre a suspeita, em que falo muito da importância da ressonância antes da biópsia, fica claro que ela ajuda no diagnóstico e também no estadiamento.

Outros exames, como tomografia computadorizada, cintilografia óssea e PET-CT PSMA, também podem ajudar o seu médico. Pela diretriz europeia, eles entram no risco intermediário desfavorável e no alto. No baixo risco e no intermediário favorável, a recomendação é não fazer exame extra para estadiar.1

A classificação TNM

O objetivo da classificação TNM é entender como está o tumor naquele momento (T), como estão os linfonodos (N) e se há ou não metástases (M).2

Estadiamento TNM do câncer de próstata: tumor na próstata, linfonodos da pelve e metástase à distância
T, N e M: o tumor na próstata, os linfonodos da pelve e a doença à distância.
ComponenteO que avaliaCategorias
TO tumor na próstataT1: não é palpável no toque · T2: palpável e restrito à próstata · T3a: atravessa a cápsula da próstata · T3b: atinge as vesículas seminais · T4: fixo ou invadindo estruturas vizinhas
NLinfonodos da pelveN0: sem comprometimento · N1: com comprometimento
MMetástase à distânciaM0: sem metástase · M1: com metástase (linfonodos distantes, ossos ou outros órgãos)

É de acordo com esse estadiamento que se define como tratar o câncer de próstata em cada caso. Isso vai desde a possibilidade de uma vigilância ativa até a melhor tática de radioterapia ou de cirurgia. Infelizmente, em alguns casos, não cabe nenhum tratamento local, apenas um tratamento sistêmico.

Juntando as peças: os grupos de risco

Na prática, o Gleason, o PSA e o estadiamento se juntam numa classificação só: os grupos de risco. É ela que a diretriz europeia usa para orientar a decisão de vigiar ou tratar o câncer de próstata.1

Grupo de riscoCritériosVigilância ativa
BaixoISUP 1, PSA abaixo de 10, T1 ou T2É o padrão
Intermediário favorávelISUP 2 com PSA abaixo de 10, ou ISUP 1 com PSA de 10 a 20; T1 ou T2Em casos selecionados
Intermediário desfavorávelISUP 2 com PSA de 10 a 20, ou ISUP 3; T1 ou T2Não é a indicação habitual
AltoISUP 4 ou 5, ou PSA acima de 20Não é a indicação habitual
Localmente avançadoT3 ou T4, ou linfonodo comprometidoNão é a indicação habitual

Para a diretriz, o câncer de baixo risco é insignificante em quase todos os homens. O de alto risco é significativo em quase todos, a não ser quando a expectativa de vida é curta.1

A terceira peça: a saúde de quem tem o câncer

Definida a decisão de acordo com as características da doença, entra um componente que nunca pode ser deixado de lado. É ele que mostra se o seu médico está preocupado com o tratamento integral da sua saúde, do ser humano que está com a doença. Ou se ele simplesmente quer mais uma cirurgia para a conta e uma massagem no ego.

Depois de classificar e estadiar a doença, e antes de tratar o câncer de próstata, precisamos entender como está a saúde do paciente.1 Para isso, avaliamos as comorbidades, ou seja, as outras doenças que ele tem. Na prática, eu me pergunto:

  • O câncer de próstata é a doença mais grave que ele tem neste momento? Ou uma insuficiência cardíaca descompensada ameaça a vida dele mais do que o próprio câncer?
  • O estado nutricional é bom? Se ele for operado, temos boa perspectiva de cicatrização e de recuperação, ou corremos o risco de fístula e de incontinência no pós-operatório?
  • Como está a cognição? Ele vai entender como será o pós-operatório e participar da recuperação, tanto da cirurgia quanto da radioterapia?
  • Ele consegue compreender os prós e os contras do tratamento a ponto de assinar o termo de consentimento informado? É esse documento que certifica que a decisão foi tomada em comum acordo, com total compreensão dos dois lados.
  • Ele tem alto risco de delírio se a internação se prolongar um pouco mais?
  • Levando em conta diabetes e pressão alta, a saúde global dele favorece um tratamento mais invasivo ou não?

Decisão compartilhada: por que trazer a família para a consulta

Tudo isso é o alicerce do que chamamos de decisão compartilhada. Quando faço um diagnóstico de câncer, não estou lidando com uma doença. Estou lidando com um paciente que tem expectativa de vida, vida familiar e perspectivas de futuro.

Isso é tão verdade que, na consulta em que avaliamos a situação para decidir o tratamento, acho muito produtivo quando o paciente vem com quem vai compor a sua rede de apoio. Pode ser a esposa ou o parceiro, os filhos, os netos. Qualquer pessoa que vá estar ao seu lado nos momentos de dificuldade e cuja opinião você vá levar em consideração. Todas essas pessoas também precisam entender o que esperar e quais desafios vão aparecer no caminho.

A diretriz europeia diz o mesmo com outras palavras: os valores e as preferências do paciente entram na decisão, ao lado do risco da doença. Entre o que pesa na escolha pela vigilância, ela cita inclusive a influência da família e dos amigos.1 E reconhece que a ansiedade de viver vigiando o câncer, que aparece em cerca de 1 em cada 10 homens, é um motivo válido para tratar.1 Escolher tratar o câncer de próstata, mesmo podendo vigiar, também é uma decisão legítima, desde que tomada com todas as informações na mesa.

Por isso, a decisão sobre tratar ou não o câncer de próstata depois de um diagnóstico num laudo de biópsia envolve uma conversa muito franca. Envolve também uma avaliação médica muito ampla do seu caso e da estrutura que você tem para lidar com todas as fases do tratamento.

Antes de decidir tratar o câncer de próstata

Espero sinceramente que, depois de ler este artigo, você possa respirar fundo. Existem muitas nuances a considerar, e a decisão sobre tratar ou não o câncer de próstata, e com qual tratamento, não deve ser tomada às pressas. Você precisa se sentir seguro na decisão que vai tomar. E precisa ter ao seu lado um médico, uma equipe e uma rede de apoio prontos para te dar suporte ao longo desse caminho.

Uma pergunta muito comum no consultório é: “Doutor, acabei de receber o laudo da minha biópsia e quero marcar a cirurgia para amanhã.” Ao longo deste texto, tentei explicar que existem tipos e tipos de câncer. Alguns realmente nos impõem atenção e prazos definidos para que o tratamento comece. Em outras situações, podemos seguir com a vigilância ativa.

Não gostaria que você saísse desta leitura com a impressão de que o câncer de próstata não merece tratamento, nem que se incluísse por conta própria no grupo de quem vai apenas observar a doença. Se você recebeu um diagnóstico de câncer de próstata, o prazo para novos exames e para a decisão sobre o tratamento deve ser definido numa consulta, em que vocês vão conversar e alinhar todas as expectativas.

Para essa consulta, leve o laudo da biópsia, a ressonância e os exames de estadiamento que já tiver feito. Leve também a lista das suas outras doenças e dos remédios que usa. E, se puder, leve as pessoas da sua rede de apoio. Marque essa conversa com o seu especialista de confiança assim que tiver o laudo em mãos.


Este texto tem caráter informativo e educativo, para esclarecer dúvidas. Ele não substitui a consulta médica e nunca deve ser usado para definir uma conduta diante de uma dúvida. Cada caso precisa de avaliação individual.

Dr. Daniel Hampl · Médico · CRM-RJ 52.81807-0 · Urologia, RQE nº 19194 · Cirurgia Geral, RQE nº 19193
Atua em cirurgia robótica e no tratamento do câncer urológico. Atende na Barra da Tijuca e em Ipanema, Rio de Janeiro.
Publicado em outubro de 2026

Referências (4)
  1. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer. Edição 2026 (atualização limitada de março de 2026), pocket guidelines e capítulo Treatment. Arnhem: EAU, 2026. Disponível em: https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/pocket-guidelines/EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG-Pocket-on-Prostate-Cancer-2026_2026-03-14-103741_ikpf.pdf e https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/treatment. Acesso em: 9 out. 2026.
  2. European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer: Classification and Staging Systems. Arnhem: EAU. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/classification-and-staging-systems. Acesso em: 5 out. 2026.
  3. Epstein JI. Prostate cancer grading: a decade after the 2005 modified system. Mod Pathol. 2018;31(1):47-63. doi:10.1038/modpathol.2017.133. Disponível em: https://www.nature.com/articles/modpathol2017133. Acesso em: 5 out. 2026.
  4. Epstein JI, Zelefsky MJ, Sjoberg DD, et al. A contemporary prostate cancer grading system: a validated alternative to the Gleason score. Eur Urol. 2016;69(3):428-35. doi:10.1016/j.eururo.2015.06.046. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26166626/. Acesso em: 5 out. 2026.

Fase 6 de 9

Tratamento do câncer de próstata: como escolher por onde começar

Quando a biópsia confirma o câncer de próstata, chega a fase de decidir o que fazer com essa informação. Médico, paciente e, muitas vezes, a família precisam chegar a uma conclusão: tentaremos um tratamento curativo ou simplesmente faremos observação? No tratamento do câncer de próstata, os caminhos curativos são a vigilância ativa, a prostatectomia radical e a radioterapia. As terapias focais existem, mas ainda estão em estudo.

Cada uma dessas modalidades precisa de critérios de inclusão bem estabelecidos. E precisa, principalmente, que você entenda bem os riscos e os benefícios de cada uma. Neste artigo, não vou entrar nas avaliações técnicas de cada modalidade, senão a leitura ficaria cansativa e pouco produtiva. O que eu quero é que você saia daqui esclarecido e empoderado para entender a melhor rota na sua decisão.

Observação não é a mesma coisa que vigilância ativa

Quando falo de observação, falo daqueles pacientes com baixa expectativa de vida, em que muito provavelmente a despedida deste mundo virá por outras causas que não o câncer de próstata. São os pacientes com expectativa de vida menor do que 10 anos.1 Na observação, acompanhamos a evolução. Caso o câncer ofereça alguma situação desconfortável, fazemos tratamentos pontuais para tentar manter a qualidade de vida do paciente.

É preciso tomar muito cuidado para não misturar esse conceito com o de vigilância ativa, que abordei um pouco na fase anterior. A vigilância ativa é considerada, sim, um tratamento curativo, e não paliativo.1 Ela significa monitorar de perto a doença e oferecer o tratamento curativo quando ele for necessário.

Vigilância ativa: o ativo não está aí à toa

A vigilância ativa pode soar como o caminho mais tranquilo. Mas é fundamental ter clareza de que a palavra ativo não está nessa vigilância à toa. Ela significa exames regulares: PSA, ressonância e, muitas vezes, uma nova biópsia.2 Conforme o caso, entram também testes genéticos e biomarcadores. Tudo isso para entender em que momento precisamos mudar a rota no tratamento do câncer de próstata, de um caminho não cirúrgico para um mais invasivo.

São muitos os centros de tratamento do câncer de próstata no mundo, e os critérios para vigilância ativa variam de um centro para outro.1 Por isso, na hora de tomar essa decisão, saiba quais critérios o seu médico usa para escolher esse caminho.

Revise todos os exames antes de escolher a vigilância

Se eu puder te dar uma dica da minha prática diária: acho fundamental revisar todos os exames que você já fez, para entender se as informações estão alinhadas ao longo do tempo.

Por exemplo, a sua ressonância suspeita de uma doença agressiva. O toque retal mostrou um nódulo grosseiro. E a biópsia diz que a doença é ISUP 1. Nesse cenário, é fundamental entender se existe equivalência de qualidade entre essas informações. Assim, não corremos o risco de subestadiar um problema e, por consequência, deixar sem tratamento uma doença que merecia tratamento.3

A revisão de lâminas da biópsia

Nesse sentido, um ponto que considero fundamental, e que faço para todos os meus pacientes que vão seguir pela vigilância ativa, é a revisão de lâminas da biópsia.

O que é isso? Quando você faz a biópsia, o tecido é enviado para análise. O patologista classifica a doença naquela escala de Gleason de que falei no artigo anterior. Hoje, o Gleason e o ISUP são uma tentativa de estratificar o risco dessa doença. Mas, como tudo na medicina, a leitura pode variar de um patologista para o outro.4

Então, a revisão de lâmina é uma segunda opinião sobre o tipo de câncer com que estamos lidando. É uma informação muito importante para nos dar mais, ou menos, segurança nessa rota de tratamento vigilante.

O que não pode acontecer é usar a revisão de lâmina para tentar tirar uma informação melhor de uma biópsia que a gente já suspeita ser de baixa qualidade. A revisão vale para ter a opinião de dois patologistas diferentes sobre o mesmo tecido. Se as duas opiniões forem congruentes, partimos para a vigilância ativa com mais confiança.

O que não dá é pedir uma revisão de lâmina quando o resultado da biópsia é incompatível com o resto da análise: a ressonância, o toque e o valor do PSA. Na fase anterior, contei o caso de um paciente cuja biópsia subestimou o problema porque tinha sido feita com baixa qualidade técnica. Um estudo coreano de 2026 mostrou isso em números: reler as lâminas de biópsias feitas fora do centro de referência aumentou a concordância com o resultado da cirurgia só de 40,0% para 45,3%.3 Então, a revisão de lâmina ajuda, mas não conserta uma biópsia mal feita.

Cirurgia ou radioterapia: quando o câncer é clinicamente significativo

Às vezes, já no estadiamento inicial, sabemos que estamos lidando com uma doença clinicamente significativa, ou seja, aquela que ameaça a sua vida a curto e médio prazo. Aí você tem duas rotas principais no tratamento do câncer de próstata: a cirurgia ou a radioterapia.

Aqui, de novo, não quero ficar explicando quais são as plataformas robóticas, as vias de acesso, o tipo de cirurgia ou de retirada de linfonodos que faremos.

Ilustração de cirurgia robótica da próstata, com o cirurgião no console e os braços robóticos sobre o paciente
Cirurgia robótica: o cirurgião opera do console, e os braços do robô seguem os seus movimentos.

Também não vou explicar a diferença entre as máquinas de radioterapia. Importa mais entender como escolher o primeiro passo.

Ilustração de radioterapia externa, uma das opções no tratamento do câncer de próstata, com o acelerador linear sobre o paciente
Radioterapia externa: o acelerador linear direciona a radiação para a próstata, sem cortes.

Atualmente, tratamos cânceres com características mais agressivas do que tratávamos no passado. Como assim? Antigamente, pacientes com Gleason 2, 3, 4 e 5 eram submetidos a tratamento. Hoje, esses números sequer aparecem mais nos laudos de biópsia.5 Ou seja, estamos reservando o tratamento para os cânceres mais agressivos, com maior risco de a doença voltar e de ameaçar a sua vida.

O que o seu grupo de risco permite

No artigo anterior, mostrei como o Gleason, o PSA e o estadiamento se juntam nos grupos de risco. Para escolher o primeiro degrau no tratamento do câncer de próstata, o que importa é o que cada grupo permite. No baixo risco, a vigilância ativa é o tratamento padrão. No intermediário favorável, a diretriz ainda a oferece a pacientes selecionados.2 A partir do intermediário desfavorável e no alto risco, a diretriz já não oferece vigilância. A conversa passa a ser entre cirurgia e radioterapia.2

Uma escada, e não uma escadinha

Toda decisão de tratamento envolve hoje a sua estratificação de risco. Por isso, o tratamento do câncer de próstata atualmente é considerado multimodal.

Eu falo para os meus pacientes que nós vamos subir uma escada. Não uso o termo escadinha, porque ele minimiza o problema. Podemos subir um degrau e parar por ali, dependendo da estratificação de risco. Ou, ao longo do tempo, pode ser necessário subir alguns outros degraus. Pensando num tratamento multimodal, quanto mais opções tivermos, melhor para o futuro.

Por que a cirurgia costuma ser o primeiro degrau

Na hora de decidir entre radioterapia e cirurgia, é fundamental entender uma assimetria. O paciente operado pode receber radioterapia no futuro, se for preciso.2 E, na minha experiência, com menos efeitos colaterais do que o paciente que fez a radioterapia como primeiro degrau e, com a doença resistente, precisa de uma prostatectomia radical depois.

E esse segundo degrau muitas vezes não chega. Um ensaio acompanhou 1.396 homens operados que tinham algum fator de risco para a doença voltar. Metade fez só o acompanhamento com PSA, e a radioterapia ficava reservada para quando ele subisse. Em até 8 anos, cerca de 1 em cada 3 desse grupo precisou dela.6

A radioterapia muda as características dos tecidos da região. Isso torna a cirurgia de resgate tecnicamente desafiadora, com mais risco de incontinência, impotência e lesão de órgãos vizinhos do que num paciente virgem de tratamento. Numa revisão de 20 estudos com 4.175 homens operados depois de radioterapia ou de outro tratamento não cirúrgico, a continência foi preservada em 40,4% deles, e a ereção em menos de 16%. Lesão do reto ocorreu em 0,9%.7

Tratamento do câncer de próstata: depois da cirurgia, cerca de 1 em cada 3 homens operados com fator de risco precisou de radioterapia em até 8 anos; depois da radioterapia, a cirurgia de resgate preservou a continência em 40,4% e a ereção em menos de 16%
A ordem dos degraus importa: o caminho da cirurgia para a radioterapia é diferente do caminho inverso.

As duas opções, radioterapia e cirurgia, são curativas. No maior ensaio que comparou os caminhos, com 1.643 homens acompanhados por cerca de 15 anos, a morte pelo câncer de próstata ficou entre 2,2% e 3,1% em todos os grupos.8 Ainda assim, soa mais interessante fazer a prostatectomia radical como o primeiro degrau dessa escada.

Eu, como cirurgião, gostaria de oferecer esse tratamento curativo sempre ao paciente ideal: aquele em que a cirurgia seria a única forma de tratamento, a bala de prata. Mas isso precisa ser alinhado à realidade de cada paciente. A decisão sobre o tratamento precisa ser compartilhada, com alinhamento de expectativas e com entendimento da classificação de risco da doença.

Radioterapia costuma vir com hormonioterapia

Um detalhe pesa nessa comparação. Quando a radioterapia trata o risco intermediário ou alto, a diretriz europeia recomenda associar hormonioterapia, o bloqueio da testosterona. São de 4 a 6 meses no risco intermediário e de 2 a 3 anos no alto risco.2 Os efeitos desse bloqueio também entram na conta da escolha. Falo deles na fase sobre cirurgia ou radioterapia.

Calculadoras de risco: o horizonte, não a sentença

Atualmente existem calculadoras de risco que ajudam a planejar o tratamento do câncer de próstata.1 Nelas colocamos as informações iniciais, como PSA, idade, o Gleason da biópsia e a quantidade de fragmentos positivos. Algumas incluem dados da ressonância; outras, dados de testes genéticos. Com isso, fazemos projeções sobre o risco de a doença voltar e o risco de morte por ela.

E aqui, de novo, medicina não é matemática. Esses números servem para mostrar o horizonte, o cenário. Não devem ser levados como verdades absolutas, nem como dificuldades intransponíveis.

Terapia focal no câncer de próstata: atraente, mas ainda em estudo

O que antigamente era uma heresia hoje está bastante em voga no tratamento do câncer de próstata: as terapias focais. A terapia focal consiste em não agredir a glândula como um todo, o que traz o risco de agredir os tecidos ao redor. Em vez disso, mapeamos onde a doença se posiciona na próstata e oferecemos tratamentos focais, como a crioterapia ou a termoablação. Mais recentemente, ainda em protocolos de estudo, falamos até em cirurgia parcial da próstata.

Apesar de bastante atraentes, os tratamentos focais ainda precisam de um seguimento mais longo para que possamos indicá-los com tranquilidade. A diretriz europeia, inclusive, recomenda que essas terapias sejam feitas apenas em protocolos de estudo ou registros.2

Ouvir um oncologista ou um radioterapeuta não é demérito

Cada opção de tratamento que comentei aqui tem seus riscos, seus prós e seus contras. Por isso, não vejo demérito nenhum em, depois de uma explicação ampla sobre a sua situação, decidirmos ouvir a opinião de um oncologista ou de um radioterapeuta, por exemplo.1

O tratamento do câncer de próstata não começa na pressa

Mais uma vez, bato na tecla: a decisão sobre qual tratamento fazer, e quando, não deve passar por uma sensação de urgência, de correria desenfreada. Todas as opções precisam ser ponderadas e colocadas na sua mesa.

Logo depois da biópsia, a próstata passa por uma reação inflamatória local intensa. Na teoria, isso dificulta, durante a cirurgia, separar o que é tecido cicatricial inflamado do que é tecido tumoral. Por isso, muitos urologistas ao redor do mundo defendem fazer a prostatectomia radical cerca de quatro a seis semanas depois da biópsia, para que a inflamação já tenha diminuído o suficiente e não atrapalhe a cirurgia do ponto de vista técnico nem a preservação do tecido duvidoso ao redor da próstata.

Portanto, se muitos urologistas no mundo esperam de quatro a seis semanas para operar, não recomendo que você tente tomar uma decisão em quatro a seis horas, movido pelo medo e pelo desespero. É importante que todos os pontos sejam avaliados e que as suas expectativas estejam alinhadas com o que o seu tratamento pode te oferecer de melhor.


Este texto tem caráter informativo e educativo, para esclarecer dúvidas. Ele não substitui a consulta médica e nunca deve ser usado para definir uma conduta diante de uma dúvida. Cada caso precisa de avaliação individual.

Dr. Daniel Hampl · Médico · CRM-RJ 52.81807-0 · Urologia, RQE nº 19194 · Cirurgia Geral, RQE nº 19193
Atua em cirurgia robótica e no tratamento do câncer urológico. Atende na Barra da Tijuca e em Ipanema, Rio de Janeiro.
Publicado em outubro de 2026

Referências (8)
  1. European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer: Treatment. Arnhem: EAU. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/treatment. Acesso em: 5 out. 2026.
  2. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Pocket Guidelines on Prostate Cancer. Arnhem: EAU, 2026. Disponível em: https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/pocket-guidelines/EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG-Pocket-on-Prostate-Cancer-2026_2026-03-14-103741_ikpf.pdf. Acesso em: 6 out. 2026.
  3. Park HJ, Park JH, Chung Y, et al. Diagnostic discordance in outside prostate biopsies: implications for active surveillance patient selection. Investig Clin Urol. 2026;67(5):452-458. doi:10.4111/icu.20260093. Disponível em: https://icurology.org/DOIx.php?id=10.4111%2Ficu.20260093. Acesso em: 5 out. 2026.
  4. Cinar I, Cinar E. Assessment of interobserver variability in Gleason grading for prostate carcinoma. North Clin Istanb. 2025;12(3):337-343. doi:10.14744/nci.2025.11456. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40843333/. Acesso em: 5 out. 2026.
  5. European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer: Classification and Staging Systems. Arnhem: EAU. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/classification-and-staging-systems. Acesso em: 6 out. 2026.
  6. Parker CC, Clarke NW, Cook AD, et al. Timing of radiotherapy after radical prostatectomy (RADICALS-RT): a randomised, controlled phase 3 trial. Lancet. 2020;396(10260):1413-1421. doi:10.1016/S0140-6736(20)31553-1. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31553-1. Acesso em: 6 out. 2026.
  7. Marra G, Marquis A, Yanagisawa T, et al. Salvage radical prostatectomy for recurrent prostate cancer after primary nonsurgical treatment: an updated systematic review. Eur Urol Focus. 2023;9(2):251-257. doi:10.1016/j.euf.2023.01.013. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36822924/. Acesso em: 5 out. 2026.
  8. Hamdy FC, Donovan JL, Lane JA, et al. Fifteen-year outcomes after monitoring, surgery, or radiotherapy for prostate cancer. N Engl J Med. 2023;388(17):1547-1558. doi:10.1056/NEJMoa2214122. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36912538/. Acesso em: 5 out. 2026.

Fase 7 de 9

Cirurgia ou radioterapia no câncer de próstata: como escolher

Se você teve o diagnóstico recente de câncer de próstata e está buscando na internet informação de qualidade sobre as formas de tratamento, quero logo de cara te dizer uma coisa. O câncer de próstata em estágio inicial é altamente tratável e, na imensa maioria das vezes, curado. No maior ensaio que comparou os caminhos, mais de 96% dos homens não morreram da doença em 15 anos, qualquer que fosse o tratamento.1

Para esse estágio, as formas clássicas de tratamento curativo são a vigilância ativa, a cirurgia e a radioterapia. Escolher entre elas depende de entender o que cada caminho oferece e o que cada um cobra. Por isso, antes de decidir entre cirurgia ou radioterapia, vale conhecer os efeitos de cada uma com números na mão.

Antes de escolher: o seu risco já foi construído

Toda decisão sobre tratar ou não tratar, e sobre cirurgia ou radioterapia, foi sendo construída ao longo do diagnóstico. A estratificação de risco que saiu dessa fase é o que agora abre o leque de possibilidades. Pensando na sua expectativa de vida, e seguindo nomogramas de decisão clínica, tentamos responder a uma pergunta. Qual é o risco de o seu câncer crescer e se espalhar? Não esquece isso.

Alguns pacientes não podem fazer a vigilância ativa e merecem um tratamento, mas não têm condições clínicas para cirurgia ou radioterapia. Nesses casos, a hormonioterapia pode ser, sim, uma alternativa. A diretriz europeia, no entanto, a reserva para situações específicas, como a doença que cresce rápido ou a pouco diferenciada.2

Também não vou abordar aqui as terapias focais, como o HIFU, a crioterapia ou a ablação com laser. As principais sociedades de urologia ainda as consideram técnicas em investigação. Por isso, devem ser feitas apenas em protocolos de estudo.2

Vigilância ativa: devo, não nego, pago quando precisar

Optar pela vigilância ativa não significa optar por não fazer tratamento. Eu já disse na fase anterior que ela é o famoso “devo, não nego, pago quando puder”, ou quando precisar. A vigilância envolve dosagens de PSA, toque retal, ressonâncias e, muito provavelmente, biópsias ao longo da observação.2

A grande vantagem está no que ela poupa. Você não passa por anestesia nem por cirurgia. Pelo menos num primeiro momento, também não se expõe ao risco de incontinência urinária ou de disfunção erétil, os principais efeitos colaterais dos tratamentos clássicos. Se a vigilância correr bem, é possível até que você não precise de cirurgia ou radioterapia no futuro. E, se precisar, esses tratamentos serão feitos numa doença ainda em estágio inicial.

Quando a cabeça não descansa

Confesso que muitos pacientes meus que começam pela vigilância ativa acabam escolhendo um tratamento definitivo. E fazem isso mesmo sem nenhum sinal de que a doença ficou mais agressiva. Isso é bem documentado na literatura mundial, e um dos fatores que fazem o paciente mudar de rota é a parte psicológica. A diretriz europeia estima que cerca de 1 em cada 10 homens em vigilância sente ansiedade com o acompanhamento. E reconhece isso como motivo válido para tratar.3

Eu ouço dos meus pacientes uma frase assim: “Doutor, eu entendo que a minha classificação de risco me diz para ficar tranquilo. Por outro lado, eu não consigo botar a cabeça no travesseiro e dormir, dia após dia, com esse diagnóstico martelando.”

Faço questão de dizer: o melhor tratamento do câncer de próstata é aquele que você entende, compreende e que te traz paz.

Prostatectomia radical robótica

Quando a rota cirúrgica é a escolhida, a prostatectomia radical robô-assistida é hoje o padrão-ouro. Existem várias técnicas para retirar a próstata. A cirurgia aberta pode ser feita por via abdominal ou perineal. Já entre as minimamente invasivas, há a laparoscópica e a robótica.

Na cirurgia robótica, operamos por pequenas incisões no abdômen, por onde passam as pinças e a ótica robótica. A visão em 3D, magnificada, nos dá uma precisão enorme sobre os tecidos. Comparada com a cirurgia aberta, ela se associa a menos sangramento. Também traz uma recuperação mais rápida da continência e da ereção nos primeiros meses. Em 12 meses, os resultados das duas técnicas se aproximam.3

Antes da cirurgia, também dá para estimar o risco de o câncer voltar. Uma das ferramentas mais usadas é a calculadora pré-prostatectomia do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, de Nova York. Com a idade, o PSA, o Gleason da biópsia, o estadiamento clínico e, se houver, o número de fragmentos positivos, ela estima a chance de a doença estar restrita à próstata ou de ter atingido as vesículas seminais e os linfonodos. Estima também a chance de o PSA voltar a subir depois da cirurgia e o risco de morte pelo câncer.4 Esses números ajudam a planejar a cirurgia e a conversar sobre o que vem depois. Mas valem para grupos de homens, e não como sentença para um paciente.4

Disfunção erétil: o que esperar depois da cirurgia

Disfunção erétil é a incapacidade de manter o pênis rígido o suficiente para uma relação sexual com penetração satisfatória. Alguns pacientes já têm um risco maior, independentemente da cirurgia. São os mais idosos e os que já têm problemas de ereção. E também aqueles em que a doença está muito próxima dos nervos e vasos da ereção, ou até invadindo esses nervos.

Qualquer que seja a técnica, a recuperação da ereção costuma ser mais lenta do que você gostaria. Pode levar muitos meses, até dois anos. Claro que nem todo mundo que opera passa por isso, mas as estatísticas variam muito. Numa revisão de estudos com cirurgia robótica, a ereção estava preservada em 54% a 90% dos homens em 12 meses. Em 24 meses, em 63% a 94%.5 Além disso, a ereção tem um componente psicológico importante, e não temos como afastar essa variável do processo.

Existem tratamentos muito interessantes para manter a relação sexual com penetração. Há comprimidos orais, injeções, bomba de vácuo e até o implante cirúrgico de prótese peniana. Vou falar mais sobre isso no próximo artigo, sobre como é a vida depois do tratamento. Se você que está lendo já enfrenta dificuldade de ereção, não fique desconfortável e sozinho, preso na sua cadeira. Vale conversar com o seu urologista sobre as opções.

Incontinência urinária: o transitório e o permanente

A incontinência urinária é uma das complicações mais temidas por quem faz a cirurgia da próstata. Aqui, as estatísticas da cirurgia robótica são mais esperançosas. Numa revisão de estudos com cirurgia robótica, em média 84% dos homens não usavam nenhum absorvente 12 meses depois. Contando quem usa só um absorvente de segurança, a média sobe para 91%.6 A incontinência que exige uma nova cirurgia é minoria. Num estudo canadense com mais de 25 mil homens operados, foram 2,6% em cinco anos.7

Por que eu falo em permanente? Porque logo após a cirurgia é extremamente comum passar por um período transitório de perda do controle da urina. Num primeiro momento, colocamos um cateter, a sonda vesical, que ajuda a cicatrização da bexiga e da uretra. Assim que a sonda é retirada, é bastante comum haver perda urinária. Ela vai sendo recuperada ao longo do tempo, principalmente com os exercícios de Kegel. Entram também as medidas comportamentais que o seu urologista vai abordar com você em consulta.

Os prazos são bastante heterogêneos. Variam de pessoa para pessoa e do tipo de cirurgia realizada. Variam também do grau de comprometimento das estruturas anatômicas, causado não só pela cirurgia, mas pela própria doença. Tem paciente que tira a sonda e não usa nenhuma fralda. Tem paciente que usa muitas fraldas na primeira semana e, na segunda, já não usa nenhuma. E tem aqueles que precisam de três a seis meses para se livrar delas. A imensa maioria está livre das fraldas em até 12 meses. Com a cirurgia robótica, esse prazo tem se mostrado bem mais curto.

Incontinência um ano depois da prostatectomia robótica: de cada 100 homens, 84 sem absorvente, 7 com absorvente de segurança e 9 com perda que pede absorvente
Um ano depois da prostatectomia robótica, de cada 100 homens.

Radioterapia

A radioterapia muitas vezes é apresentada ao paciente como a opção para não correr os riscos de incontinência e de impotência. Os números, porém, mostram uma troca, e não uma fuga. No maior ensaio que comparou os caminhos, a incontinência foi menor depois da radioterapia. Usavam absorvente de 18% a 24% dos operados, contra 3% a 8% dos irradiados. Para a ereção, a diferença existiu nos primeiros anos e depois se diluiu: aos 12 anos, todos os grupos estavam em níveis baixos. Já a perda de fezes chegou a 12% depois da radioterapia, contra 6% depois da cirurgia.8 Então, na escolha entre cirurgia ou radioterapia, eu não recomendo decidir baseado só nesse viés.

Na comparação entre cirurgia ou radioterapia, a vantagem da radioterapia é não haver procedimento anestésico. Você não vai precisar ir para um centro cirúrgico nem fazer anestesia geral. Todo o tratamento é realizado numa clínica com geradores de radioterapia, hoje muito avançados. Eles produzem feixes que convergem e destroem o tecido doente sem que seja necessária uma cirurgia.

Como é o tratamento

O tratamento é feito deitado numa maca. A máquina lembra uma tomografia ou uma ressonância, mas entrega radiação em vários ângulos diferentes. Existem vários protocolos de máquina e de cálculo de dose. Por isso, o seu tratamento pode variar, por exemplo, de 5 a cerca de 40 sessões.3

Em muitos casos, a radioterapia não vem sozinha. No risco intermediário, a diretriz europeia associa de quatro a seis meses de hormonioterapia; no alto risco, de dois a três anos.2 Quem recebe o hormônio precisa acompanhar o metabolismo e a saúde dos ossos durante o tratamento.2

Tempo de hormonioterapia associado à radioterapia: 4 a 6 meses no risco intermediário e 2 a 3 anos no alto risco
Na escolha entre cirurgia ou radioterapia, o tempo de hormônio também entra na conta.

Braquiterapia

Outra forma de radioterapia é a braquiterapia, que já foi bem mais utilizada no Brasil. Hoje, tem se tornado cada vez menos frequente a opção por essa modalidade de tratamento. Num procedimento muito parecido com a biópsia, implantamos na próstata sementes radioativas de baixa dose. Cada uma tem o tamanho de um grão de arroz. Elas ficam permanentemente na próstata, entregando a dose de radiação necessária para o seu tratamento.

Efeitos colaterais da radioterapia

A radioterapia também tem efeitos colaterais, como disfunção erétil, incontinência urinária e fadiga. Além disso, os raios atravessam outros órgãos, como a bexiga e o intestino. Daí vêm duas complicações temidas: a cistite actínica e a retite actínica. Por mais avançado que seja o tratamento, não podemos excluir a possibilidade de a radiação comprometer esses dois órgãos. Isso pode trazer problemas na micção e na evacuação a longo prazo. Com as técnicas atuais, efeitos tardios graves ficam entre 2% e 4% no reto e entre 2% e 6% no trato urinário.3

Cirurgia ou radioterapia: o que pesa na decisão

A decisão entre cirurgia ou radioterapia precisa levar em conta vários outros fatores, que dificilmente conseguirei abordar neste texto. O seu estilo de vida e a sua profissão podem influenciar a escolha. Também pesam o seu nível de entendimento e o grau de receio de enfrentar o pós-tratamento. Por que a ordem dos tratamentos importa, e por que ouvir também um radioterapeuta não é demérito, eu explico na fase sobre os caminhos do tratamento.

O importante é que você saiba de uma coisa. De todas essas opções que coloquei aqui, estamos pensando sempre na cura da doença.

Para a consulta em que você vai escolher entre cirurgia ou radioterapia, leve as suas prioridades. O que mais te preocupa: a urina, a ereção, o intestino, o tempo longe do trabalho ou as idas diárias à radioterapia? A diretriz europeia pede que a escolha considere os seus valores e preferências e as mudanças na qualidade de vida que cada caminho traz.3


Este texto tem caráter informativo e educativo, para esclarecer dúvidas. Ele não substitui a consulta médica e nunca deve ser usado para definir uma conduta diante de uma dúvida. Cada caso precisa de avaliação individual.

Dr. Daniel Hampl · Médico · CRM-RJ 52.81807-0 · Urologia, RQE nº 19194 · Cirurgia Geral, RQE nº 19193
Atua em cirurgia robótica e no tratamento do câncer urológico. Atende na Barra da Tijuca e em Ipanema, Rio de Janeiro.
Publicado em outubro de 2026

Referências (8)
  1. Hamdy FC, Donovan JL, Lane JA, et al. Fifteen-year outcomes after monitoring, surgery, or radiotherapy for prostate cancer. N Engl J Med. 2023;388(17):1547-1558. doi:10.1056/NEJMoa2214122. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36912538/. Acesso em: 5 out. 2026.
  2. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Pocket Guidelines on Prostate Cancer. Arnhem: EAU, 2026. Disponível em: https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/pocket-guidelines/EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG-Pocket-on-Prostate-Cancer-2026_2026-03-14-103741_ikpf.pdf. Acesso em: 13 out. 2026.
  3. European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer: Treatment. Arnhem: EAU. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/treatment. Acesso em: 13 out. 2026.
  4. Memorial Sloan Kettering Cancer Center. Prostate cancer nomograms: Pre-Radical Prostatectomy. Nova York: MSKCC. Disponível em: https://www.mskcc.org/nomograms/prostate/pre_op. Acesso em: 13 out. 2026.
  5. Ficarra V, Novara G, Ahlering TE, et al. Systematic review and meta-analysis of studies reporting potency rates after robot-assisted radical prostatectomy. Eur Urol. 2012;62(3). doi:10.1016/j.eururo.2012.05.046. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22749850/. Acesso em: 5 out. 2026.
  6. Ficarra V, Novara G, Rosen RC, et al. Systematic review and meta-analysis of studies reporting urinary continence recovery after robot-assisted radical prostatectomy. Eur Urol. 2012;62(3):405-417. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22749852/. Acesso em: 5 out. 2026.
  7. Nam RK, Herschorn S, Loblaw DA, et al. Population based study of long-term rates of surgery for urinary incontinence after radical prostatectomy for prostate cancer. J Urol. 2012;188(2):502-506. doi:10.1016/j.juro.2012.04.005. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22704098/. Acesso em: 5 out. 2026.
  8. Donovan JL, Hamdy FC, Lane JA, et al. Patient-reported outcomes 12 years after localized prostate cancer treatment. NEJM Evid. 2023;2(4):EVIDoa2300018. doi:10.1056/EVIDoa2300018. Disponível em: https://orca.cardiff.ac.uk/id/eprint/157780/. Acesso em: 5 out. 2026.

Fase 8 de 9

A vida depois do tratamento do câncer de próstata

A vida depois do tratamento do câncer de próstata não pode ser dividida entre o que o seu médico gostaria que acontecesse e o que você gostaria de estar vivendo. Qualquer que seja a modalidade escolhida, você precisa participar de todas as decisões. E ter consciência de cada etapa da recuperação.

Neste texto, explico a ordem de prioridades que os médicos seguem depois do tratamento do câncer de próstata. Mostro onde a sua participação faz diferença e por que o PSA passa a ser o exame mais importante da sua rotina.

O que o seu médico realmente gostaria que acontecesse

Depois do tratamento do câncer de próstata, o médico costuma colocar as prioridades numa ordem bem definida. Na literatura, ela tem até nome: trifecta, que reúne o controle do câncer, a continência urinária e a potência sexual.1

Em primeiro lugar, a vida

O objetivo principal é o controle oncológico, ou seja, o tratamento da doença. É a prioridade máxima. Se a decisão foi pelo tratamento, e não pela vigilância ativa, é porque a doença tem potencial de ameaçar a sua vida. Portanto, em primeiro lugar, a vida. É por isso que tanto o oncologista quanto o urologista colocam o controle oncológico como foco principal.

Em segundo lugar, o controle da urina

Em seguida vem o controle da urina. Pense num paciente que não consegue segurar a urina, que está incontinente e usando fraldas. O comprometimento da qualidade de vida é tão grande que não é absurdo ele se perguntar se o tratamento realmente valeu a pena.

É aqui que a sua participação pode fazer muita diferença. Seu médico pode recomendar os exercícios de Kegel, que treinam a musculatura do assoalho pélvico. Eles ajudam a preservar a continência, ou a recuperá-la se você estiver tendo alguma perda urinária. Para muitos dos meus pacientes, recomendo a fisioterapia do assoalho pélvico já antes da cirurgia. Ela pode se estender pelo pós-operatório. Aprender os exercícios, ir ao fisioterapeuta e ter disciplina no treino pode ser fundamental para a sua qualidade de vida.

Começar antes da cirurgia ajuda a recuperar o controle mais cedo. Numa revisão de 11 estudos, quem treinou antes teve menos perda urinária com 1, 3 e 6 meses. Em 12 meses, os dois grupos ficaram parecidos.2

Em terceiro lugar, a ereção

Depois do controle do câncer e da continência, os médicos colocam a ereção na terceira posição. Entenda: não estou dizendo isso aqui no meu site para que você interprete como desvalorização da sua ereção. Muito pelo contrário. Muitos homens preferem morrer da doença a perder a ereção. Eu também sou homem e sei o quanto a rigidez peniana pesa na nossa percepção de qualidade de vida. Só estou exemplificando, para que você entenda a diferença entre as suas expectativas e as dos médicos em relação ao tratamento.

Por que a ereção fica, na teoria, em terceiro lugar

Porque, comparada aos dois itens anteriores, a ereção tem vários caminhos para ser mantida. Há os exercícios do assoalho pélvico, as bombas a vácuo, os medicamentos orais e as injeções intracavernosas. E, em último caso, mas não menos interessante, a prótese peniana.3 Uma rigidez plena, que permita uma relação sexual com penetração, a medicina hoje consegue oferecer com relativa facilidade. Nem que seja com a prótese. Cerca de 8 em cada 10 próteses seguem funcionando dez anos depois do implante. E a satisfação de pacientes e parceiras é alta.4

Por outro lado, o controle do câncer depende de um tratamento bem-sucedido. E a continência pode ser comprometida mesmo quando você opta pela radioterapia ou por uma cirurgia robótica com preservação dos nervos. No maior ensaio que comparou os caminhos, a medida veio entre 7 e 12 anos depois. Usavam absorvente de 18% a 24% dos operados e de 3% a 8% dos irradiados.5

Se a incontinência acontecer e não for resolvida com a fisioterapia, existem, sim, dispositivos artificiais, como o esfíncter urinário artificial. Mas ele exige uma certa destreza sua para usar e cuidar do dispositivo. E a cirurgia para colocá-lo é um pouco mais complexa. Numa revisão de 12 estudos, de 61% a 100% dos homens passaram a usar no máximo um absorvente por dia depois do esfíncter. Em compensação, cerca de 1 em cada 4 precisou de nova cirurgia ao longo dos anos.6

Prioridades depois do tratamento do câncer de próstata: controle do câncer, continência urinária e ereção, com os recursos e os números de cada uma
Depois do tratamento do câncer de próstata, cada prioridade tem os seus recursos.

A vida sexual vai além da rigidez

Quando falamos de tratamento do câncer de próstata, existe, sim, uma tendência dos médicos de reduzir a vida sexual à rigidez peniana. Só que ela é muito maior do que ficar com o pênis ereto. Além da rigidez, duas coisas podem ser afetadas pelo tratamento: o orgasmo, que é a sensação de prazer, e a ejaculação, que é a eliminação do sêmen. Isso vale tanto para a cirurgia quanto para a radioterapia. Depois da prostatectomia, cerca de 8 em cada 10 homens percebem alguma mudança no orgasmo.7 Depois da radioterapia, a ejaculação diminui ou desaparece em 11% a 72% dos homens, conforme o estudo.8

Na ejaculação, a cirurgia é, sim, o que mais impacta. As vesículas seminais são retiradas e os ductos deferentes são ligados. Por isso, quem passa por uma prostatectomia radical pode, sim, ter a ereção preservada. Pode, sim, ter o orgasmo preservado. Mas não vai ter a ejaculação preservada.9

É bastante importante citar que alguns pacientes operados relatam uma ereção boa e uma sensação de orgasmo plena, com a eliminação de um líquido translúcido, em maior ou menor quantidade. Esse líquido pode ser o conteúdo de glândulas que não são retiradas na cirurgia, um pouco de urina, ou os dois. Damos o nome de climatúria à perda de urina no orgasmo. Ela aparece em 21% a 38% dos operados e em 4% a 5% dos irradiados.8 É um efeito pouco falado, que tem tratamento.10 Vale perguntar.

São essas as expectativas de longo prazo depois do tratamento do câncer de próstata.

PSA depois do tratamento do câncer de próstata: o seu novo termômetro

E como vai ser a sua vida durante o tratamento e logo depois dele? Isso depende muito do caminho escolhido, a cirurgia ou a radioterapia. As primeiras semanas de cada um estão na fase sobre como escolher entre eles. Em qualquer dos dois, existe um exame que passa a te acompanhar.

É o PSA, aquele exame de sangue usado no rastreamento e que nos ajudou a chegar ao diagnóstico. Isso, aquele mesmo exame que podia subir por N motivos, inclusive inflamação e infecção, como já discutimos numa fase anterior da sua jornada. Antes, ele era até relativamente ruim, se considerarmos a quantidade de falsos positivos. Agora, depois do tratamento do câncer de próstata, ele passa a ser o principal marcador de atividade, ou não, da doença. E o comportamento esperado do seu PSA muda conforme o tratamento que você escolheu.

Depois da cirurgia: o PSA desaba

Se você escolheu a cirurgia, o esperado é que o seu PSA desabe. Ele cai para níveis bem baixos, que os urologistas gostam de chamar de indetectáveis. Isso acontece por volta de 30 a 60 dias depois da operação.11

Indetectável não é a palavra do laudo

Aqui vai uma ressalva. O termo indetectável é muito usado entre médicos. Mas não é isso que você vai ler no papel do laboratório quando receber o laudo. Nas grandes cidades do Brasil, os laboratórios medem o PSA por um método ultrassensível, capaz de detectar valores como 0,009. Então não se assuste se, no lugar de indetectável, o laudo trouxer um PSA menor do que 0,01. É um bom sinal: homens com PSA abaixo de 0,01 ng/mL depois da cirurgia têm 96% de chance de seguir sem recidiva em dois anos.11

Dependendo do protocolo do seu médico, você pode repetir o PSA a cada três meses. A diretriz europeia sugere dosar a cada seis meses nos três primeiros anos e, depois, uma vez por ano.11 É esse exame que passa a ser o termômetro da necessidade, ou não, de novos exames e novos tratamentos.

Depois da radioterapia: a queda é lenta

Se a rota escolhida foi a radioterapia, a queda do PSA pode não ser tão abrupta. É comum o valor seguir em declínio por meses até chegar ao nível mais baixo, que chamamos de PSA nadir. Esse caminho pode levar três anos ou mais. Um nadir abaixo de 0,5 ng/mL se associa a um bom resultado.11

O PSA não pode ser abandonado

O conceito que eu gostaria que você guardasse é este: o PSA precisa ficar baixo. Mesmo depois do tratamento do câncer de próstata, a dosagem regular desse marcador precisa entrar na sua rotina. Ao contrário do que muitos homens pensam, o PSA deve, sim, continuar sendo feito. Não deve ser abandonado.

Os critérios de falha de tratamento, ou de necessidade de um tratamento complementar, são diferentes para a cirurgia e para a radioterapia. Depois da radioterapia, o critério mais usado é o PSA subir 2 ng/mL acima do nadir. Depois da cirurgia, qualquer PSA que volte a subir chama atenção.11

Se o PSA subir

Se o seu PSA subir depois do tratamento inicial, precisamos de novos exames para tentar localizar o tecido responsável pela produção do marcador. Como o PSA é um antígeno produzido pela próstata, se ele volta a subir depois do tratamento, é fundamental entender o que está acontecendo. Houve uma recidiva local da doença? Ou ela está crescendo à distância, no que chamamos de metástase? A diretriz europeia pede que esses exames, como o PET-PSMA, sejam feitos quando o resultado for mudar a decisão do tratamento.12 O que fazer a partir daí é assunto da próxima fase.

A vida depois do tratamento vai além da urina e da ereção

Faço questão de reforçar: a vida depois do tratamento do câncer de próstata vai além da urina e da ereção. Quem recebe um diagnóstico de câncer costuma viver um impacto emocional grande. Vem a reflexão sobre a brevidade da vida, a fragilidade do corpo e um olhar mais atento para a nossa mortalidade. Ou seja, para a nossa humanidade. Esse impacto pode fazer alguns homens sofrerem uma queda na qualidade de vida.

Por isso, qualquer forma de apoio é válida. Ela pode vir da sua rede direta, da família e dos amigos, e pode vir de profissionais. Não só médicos, não só o urologista ou o oncologista. Toda uma rede multidisciplinar pode estar disponível e treinada para te ajudar, ampliando o cuidado com a sua saúde como um todo. A diretriz europeia recomenda essa reabilitação multidisciplinar para todo homem tratado. Ela cuida da urina e da sexualidade, mas também da tristeza, do medo de a doença voltar e do estilo de vida.12

Números ajudam, mas não decidem

É bastante comum os pacientes perguntarem sobre as estatísticas de cura, incontinência e impotência de cada tratamento. Medicina não é matemática. Ao longo das páginas deste site, tento colocar os estudos que mostram esses números de maneira geral. Mesmo assim, considero muito importante que você entenda o conceito por trás das escolhas.

Já tive pacientes operados que ficaram incontinentes. Já tive pacientes que, depois da radioterapia, não tiveram o câncer tratado de forma ideal ou tiveram recidiva muito precoce. E também já tive pacientes em que a cirurgia não resolveu logo de imediato, por causa da agressividade local do tumor. Os números e as estatísticas ajudam a montar um panorama do quebra-cabeça decisório que você vai enfrentar. Mas é a experiência do seu cirurgião e da equipe multidisciplinar que vai te ajudar a enfrentar os efeitos colaterais. Qualquer que seja o tratamento.

Não compare o seu tratamento com o do seu amigo

Por isso, peço que você confie nos seus médicos. E que não compare o seu tratamento com o de um amigo próximo que também tratou um câncer de próstata. Cada câncer é diferente. O que o seu amigo ou conhecido está vivendo, ou já passou, pode não se reproduzir da mesma forma com você.

Na consulta depois do tratamento do câncer de próstata, leve os seus laudos de PSA em ordem de data. E pergunte: qual é o meu nadir? Com que intervalo devo repetir o exame? Qual valor deve me fazer voltar antes do previsto?

Lembre-se: todo PSA deve ser lido e interpretado em conjunto com o seu médico.


Este texto tem caráter informativo e educativo, para esclarecer dúvidas. Ele não substitui a consulta médica e nunca deve ser usado para definir uma conduta diante de uma dúvida. Cada caso precisa de avaliação individual.

Dr. Daniel Hampl · Médico · CRM-RJ 52.81807-0 · Urologia, RQE nº 19194 · Cirurgia Geral, RQE nº 19193
Atua em cirurgia robótica e no tratamento do câncer urológico. Atende na Barra da Tijuca e em Ipanema, Rio de Janeiro.
Publicado em outubro de 2026

Referências (12)
  1. Bianco FJ Jr, Scardino PT, Eastham JA. Radical prostatectomy: long-term cancer control and recovery of sexual and urinary function (“trifecta”). Urology. 2005;66(5 Suppl):83-94. doi:10.1016/j.urology.2005.06.116. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16194712/. Acesso em: 19 out. 2026.
  2. Rangganata E, Rahardjo HE. The effect of preoperative pelvic floor muscle training on incontinence problems after radical prostatectomy: a meta-analysis. Urol J. 2021;18(4):380-388. doi:10.22037/uj.v18i.6481. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33931846/. Acesso em: 19 out. 2026.
  3. Marchioni M, De Francesco P, Castellucci R, et al. Management of erectile dysfunction following robot-assisted radical prostatectomy: a systematic review. Minerva Urol Nefrol. 2020;72(5):543-554. doi:10.23736/S0393-2249.20.03780-7. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32748616/. Acesso em: 19 out. 2026.
  4. Schlager D, Leiber-Caspers C. Penile implant surgery in Germany: effective, established, yet underused. Urologie. 2026;65(4):375-381. doi:10.1007/s00120-026-02786-8. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41739182/. Acesso em: 19 out. 2026.
  5. Donovan JL, Hamdy FC, Lane JA, et al. Patient-reported outcomes 12 years after localized prostate cancer treatment. NEJM Evid. 2023;2(4):EVIDoa2300018. doi:10.1056/EVIDoa2300018. Disponível em: https://orca.cardiff.ac.uk/id/eprint/157780/. Acesso em: 5 out. 2026.
  6. Van der Aa F, Drake MJ, Kasyan GR, et al. The artificial urinary sphincter after a quarter of a century: a critical systematic review of its use in male non-neurogenic incontinence. Eur Urol. 2013;63(4):681-689. doi:10.1016/j.eururo.2012.11.034. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23219375/. Acesso em: 19 out. 2026.
  7. Frey AU, Sønksen J, Fode M. Neglected side effects after radical prostatectomy: a systematic review. J Sex Med. 2014;11(2):374-385. doi:10.1111/jsm.12403. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24267516/. Acesso em: 19 out. 2026.
  8. Röscher P, Sathiram R, Milios JE, van Wyk JM. Mapping the prevalence and use of questionnaires to detect the neglected sexual side effects after prostate cancer treatment: a scoping review. Syst Rev. 2022;11(1):2. doi:10.1186/s13643-021-01865-5. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34980265/. Acesso em: 19 out. 2026.
  9. Koeman M, van Driel MF, Schultz WC, Mensink HJ. Orgasm after radical prostatectomy. Br J Urol. 1996;77(6):861-864. doi:10.1046/j.1464-410x.1996.01416.x. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8705222/. Acesso em: 19 out. 2026.
  10. Duran MB, Bulbul MV, Serefoglu EC. Orgasm-associated urinary incontinence (climacturia) after radical prostatectomy: current concepts in pathophysiology and management. Sex Med Rev. 2026;14(4). doi:10.1093/sxmrev/qeag077. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42823064/. Acesso em: 19 out. 2026.
  11. European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer: Follow-up. Arnhem: EAU. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/followup. Acesso em: 19 out. 2026.
  12. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Pocket Guidelines on Prostate Cancer. Arnhem: EAU, 2026. Disponível em: https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/pocket-guidelines/EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG-Pocket-on-Prostate-Cancer-2026_2026-03-14-103741_ikpf.pdf. Acesso em: 19 out. 2026.

Fase 9 de 9

O PSA subiu depois do tratamento do câncer de próstata. E agora?

Uma das grandes angústias de quem trata um câncer de próstata é a dosagem regular do PSA. Em intervalos bem definidos, junto com o seu médico, você vai fazer um exame de sangue. Ele mostra se o PSA segue caindo, se está estável ou se dá sinais de aumento progressivo. E cada resultado precisa ser avaliado pelo seu médico, a cada dosagem.

Se o seu PSA subiu depois do tratamento, sim, é muito provável que seja necessário algum tipo de investigação para esclarecer o motivo. Mas o mesmo número não significa a mesma coisa para todo homem. E uma subida do PSA, sozinha, não define o seu futuro.

Antes de tudo: este texto não substitui o seu médico

A internet está cheia de notícias alarmistas e de textos que deixam você mais preocupado do que qualquer outra coisa. Eu não gostaria que os meus textos educativos fossem usados para substituir uma consulta com o seu médico. Aquele em quem você confia, a quem você confiou o seu tratamento.

Mas, se por algum acaso você caiu nesta página porque o seu PSA subiu depois do tratamento, eu gostaria que soubesse de duas coisas. Primeiro: é muito provável que alguma investigação seja necessária. Segundo: eu espero que esse cenário já tenha sido amplamente discutido com o seu médico antes mesmo do início do tratamento.

O mesmo PSA não quer dizer a mesma coisa em cada tratamento

Para cada modalidade de tratamento existe um jeito de avaliar o PSA. Um PSA de 2 ng/mL num paciente que fez radioterapia, e que tem nesse valor o seu número mais baixo em três anos, é completamente diferente de um PSA de 0,9 ng/mL num paciente que fez uma prostatectomia radical.

Depois da cirurgia

Depois da prostatectomia, o PSA deveria estar praticamente zerado em cerca de dois meses. Por isso, interpretar uma subida depois da cirurgia é diferente, e não é simples. Não existe um número de corte definitivo para dizer que a doença voltou: qualquer aumento do PSA deve ser avaliado pelo seu médico, a cada dosagem.1

O valor de 0,4 ng/mL costuma confundir. Ele não é o ponto a partir do qual você começa a se preocupar. É o limite que o PSA não deve ultrapassar: acima dele estão os valores que melhor predizem doença à distância.1 Tanto que a diretriz europeia não manda esperar um valor determinado para tratar, como explico mais abaixo. No exemplo do começo, um PSA de 0,9 ng/mL depois da cirurgia já passou desse limite e precisa ser investigado.

Depois da radioterapia

Depois da radioterapia, o PSA cai devagar. Ele pode levar três anos ou mais para chegar ao nível mais baixo, que chamamos de nadir. O critério mais usado para falar em recidiva é o PSA subir 2 ng/mL acima desse nadir.1,2 No exemplo do PSA de 2, isso só aconteceria a partir de 4.

Existe também a subida passageira, que os médicos chamam de bounce. Numa revisão de 10 estudos com quase 9 mil homens irradiados, cerca de 3 em cada 10 tiveram o PSA subindo e depois voltando a cair. E esses homens tiveram até menos recidiva do que os outros.3

Nem toda subida do PSA tem o mesmo peso

Se o seu PSA subiu depois do tratamento, o peso dessa subida depende de como e quando ela aconteceu. Numa revisão de 77 estudos, a subida do PSA depois do tratamento só piorou a sobrevida num grupo específico de homens. Depois da cirurgia, foram os que tinham o PSA dobrando de valor rapidamente e um tumor de grau alto. Depois da radioterapia, foram os que tiveram a subida pouco tempo após o tratamento e um tumor de grau alto na biópsia. Para muitos homens, portanto, o PSA subir não significa um risco alto de morrer da doença.4

Um tratamento feito em degraus

O tratamento do câncer de próstata é multimodal. Ou seja, existem várias modalidades diferentes que podem ser usadas ao longo da sua jornada. E, a cada ano que passa, os avanços tecnológicos nos ajudam a adicionar mais uma camada de tratamento, mais um degrau nessa escada. A ponto de ser muito comum os médicos dizerem que o paciente pode até falecer com o câncer de próstata, mas está cada vez mais difícil que ele faleça do câncer de próstata.

No maior ensaio que comparou os tratamentos do câncer localizado, 1.643 homens foram acompanhados por 15 anos. Nesse período, 2,7% morreram de câncer de próstata. Por qualquer causa, morreram 21,7%.5

Se o PSA subiu depois do tratamento: que exames podem entrar

Então, se o seu PSA subiu depois do tratamento, alguns outros exames podem entrar no arsenal. Os principais são a ressonância magnética e o PET-PSMA.

O PET-PSMA encontra a doença com mais frequência quanto mais alto o PSA. Num estudo com 635 homens, ele localizou a recidiva em 38% dos que tinham PSA abaixo de 0,5 ng/mL. Entre os que tinham PSA a partir de 5, foram 97%.6 Por isso, um PET sem achados com o PSA baixo não encerra a investigação. Além disso, a diretriz europeia recomenda pedir o exame quando o resultado puder mudar a decisão do tratamento.7

Que tratamentos podem ser oferecidos

Se o seu PSA subiu depois do tratamento, novas estratégias podem ser oferecidas, como radioterapia, cirurgia e hormonioterapia. E, cada vez mais, novas drogas vêm assumindo protagonismo no tratamento do câncer de próstata. A escolha depende de qual foi o primeiro tratamento e de como o PSA está se comportando.

A hormonioterapia é o bloqueio da testosterona, o hormônio que alimenta o câncer de próstata. Ela pode entrar sozinha ou junto com a radioterapia de resgate.7 Os efeitos desse bloqueio estão na fase sobre cirurgia ou radioterapia.

Se você foi operado

A diretriz europeia recomenda oferecer radioterapia de resgate cedo, quando o PSA sobe duas vezes seguidas. Não é preciso esperar que ele atinja um valor determinado. A hormonioterapia pode ser associada.7

Se você fez radioterapia

Em pacientes muito selecionados, com recidiva só na próstata comprovada por biópsia, existem opções locais. A cirurgia de resgate, a braquiterapia ou a radioterapia estereotáxica podem ser oferecidas, em centros experientes.7 Os resultados da cirurgia de resgate, com números de continência e de ereção, estão na fase sobre os caminhos do tratamento.

Tratamento focal das metástases

Quando os exames de imagem mostram poucas metástases, em geral até três, elas podem ser tratadas de forma focal, com radioterapia estereotáxica, também chamada de radiocirurgia, ou com cirurgia. Num estudo pequeno, com 62 homens com até três metástases, o tempo mediano sem precisar de hormonioterapia foi de 21 meses com o tratamento focal, contra 13 meses só com acompanhamento, sem efeitos colaterais importantes.8 É um caminho promissor, mas a diretriz europeia ainda pede que ele seja oferecido dentro de estudos clínicos. Já a metástase nos ossos que causa dor deve ser tratada cedo, e a radioterapia é uma das principais armas.7

Quando não tratar ainda

Nem toda subida pede tratamento imediato. Nos casos de baixo risco, a diretriz europeia recomenda acompanhar com o PSA. Acompanhar não é esquecer: cada dosagem continua passando pelo seu médico. Da mesma forma, quando não há metástase e o PSA leva mais de 12 meses para dobrar de valor, ela recomenda não começar a hormonioterapia.7

As novas drogas

Num ensaio com 1.068 homens com recidiva de alto risco, o PSA dobrava em 9 meses ou menos. Nesse grupo, a associação de enzalutamida com a hormonioterapia deixou 87% livres de metástase em cinco anos. Com a hormonioterapia sozinha, foram 71%.9

O PSMA também virou alvo de tratamento. O lutécio-PSMA é uma medicação que leva radiação direto às células que carregam essa proteína. A diretriz europeia o indica na doença metastática que já não responde à hormonioterapia, em geral depois da quimioterapia, quando o PET-PSMA mostra que a doença capta bem o marcador.7 No principal ensaio, com 831 homens, a sobrevida mediana foi de 15,3 meses com o lutécio, contra 11,3 meses sem ele. Efeitos colaterais importantes apareceram em 53% e 38%, respectivamente, sem piora da qualidade de vida.10 O lutécio é acessível no Brasil, e no Rio de Janeiro já tenho pacientes utilizando.

Degraus do tratamento quando o PSA sobe depois do tratamento do câncer de próstata: acompanhar com PSA, exames de imagem, resgate local, tratamento focal das metástases, hormonioterapia e novas drogas
Se o PSA subiu depois do tratamento, cada degrau depende do primeiro tratamento e do comportamento do PSA.

Quando a análise genética entra

Dependendo do seu estadiamento antes do tratamento, ou da situação do momento, uma análise genética pode ajudar na escolha do tratamento. A diretriz europeia aconselha o teste genético do sangue quando vários familiares tiveram câncer de próstata antes dos 60 anos. Também quando existe uma mutação de alto risco conhecida na família. Na doença metastática, ela recomenda ainda testar o próprio tumor.7

Esse resultado pode abrir portas. Na doença metastática que deixou de responder à hormonioterapia, homens com alterações em genes de reparo do DNA ficaram mais tempo com a doença controlada usando olaparibe. Foram 7,4 meses, contra 3,6 meses com outra droga hormonal.11

O que fazer agora

Se o seu PSA subiu depois do tratamento, não espere o próximo exame de rotina para conversar com o seu médico. Leve os laudos em ordem de data e pergunte: quanto o PSA subiu e em quanto tempo? Qual exame pode mudar a minha decisão? Quais degraus ainda estão disponíveis para mim?

E não espere o próximo PSA se aparecerem sintomas. A diretriz europeia recomenda repetir o exame diante de dor na pelve ou nos ossos, sangue na urina, piora progressiva para urinar, inchaço progressivo nas pernas, mudança persistente no intestino, cansaço ou perda de peso sem explicação.1 Nesses casos, procure o seu médico antes da data marcada.

A regra vale para toda dosagem, antes e depois de qualquer subida: o resultado sai, o seu médico avalia.


Este texto tem caráter informativo e educativo, para esclarecer dúvidas. Ele não substitui a consulta médica e nunca deve ser usado para definir uma conduta diante de uma dúvida. Cada caso precisa de avaliação individual.

Dr. Daniel Hampl · Médico · CRM-RJ 52.81807-0 · Urologia, RQE nº 19194 · Cirurgia Geral, RQE nº 19193
Atua em cirurgia robótica e no tratamento do câncer urológico. Atende na Barra da Tijuca e em Ipanema, Rio de Janeiro.
Publicado em outubro de 2026

Referências (11)
  1. European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer: Follow-up. Arnhem: EAU. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/followup. Acesso em: 19 out. 2026.
  2. Roach M 3rd, Hanks G, Thames H Jr, et al. Defining biochemical failure following radiotherapy with or without hormonal therapy in men with clinically localized prostate cancer: recommendations of the RTOG-ASTRO Phoenix Consensus Conference. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2006;65(4):965-974. doi:10.1016/j.ijrobp.2006.04.029. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16798415/. Acesso em: 19 out. 2026.
  3. Urabe F, Kimura S, Tashiro K, et al. Prognostic value of PSA bounce in prostate cancer following definitive radiation therapy: a systematic review and meta-analysis. Prostate Cancer Prostatic Dis. 2021;24(4):976-985. doi:10.1038/s41391-021-00372-x. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33947976/. Acesso em: 19 out. 2026.
  4. Van den Broeck T, van den Bergh RCN, Arfi N, et al. Prognostic value of biochemical recurrence following treatment with curative intent for prostate cancer: a systematic review. Eur Urol. 2019;75(6):967-987. doi:10.1016/j.eururo.2018.10.011. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30342843/. Acesso em: 19 out. 2026.
  5. Hamdy FC, Donovan JL, Lane JA, et al. Fifteen-year outcomes after monitoring, surgery, or radiotherapy for prostate cancer. N Engl J Med. 2023;388(17):1547-1558. doi:10.1056/NEJMoa2214122. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36912538/. Acesso em: 19 out. 2026.
  6. Fendler WP, Calais J, Eiber M, et al. Assessment of 68Ga-PSMA-11 PET accuracy in localizing recurrent prostate cancer: a prospective single-arm clinical trial. JAMA Oncol. 2019;5(6):856-863. doi:10.1001/jamaoncol.2019.0096. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30920593/. Acesso em: 19 out. 2026.
  7. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Pocket Guidelines on Prostate Cancer. Arnhem: EAU, 2026. Disponível em: https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/pocket-guidelines/EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG-Pocket-on-Prostate-Cancer-2026_2026-03-14-103741_ikpf.pdf. Acesso em: 19 out. 2026.
  8. Ost P, Reynders D, Decaestecker K, et al. Surveillance or metastasis-directed therapy for oligometastatic prostate cancer recurrence: a prospective, randomized, multicenter phase II trial. J Clin Oncol. 2018;36(5):446-453. doi:10.1200/JCO.2017.75.4853. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29240541/. Acesso em: 19 out. 2026.
  9. Freedland SJ, de Almeida Luz M, De Giorgi U, et al. Improved outcomes with enzalutamide in biochemically recurrent prostate cancer. N Engl J Med. 2023;389(16):1453-1465. doi:10.1056/NEJMoa2303974. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37851874/. Acesso em: 19 out. 2026.
  10. Sartor O, de Bono J, Chi KN, et al. Lutetium-177-PSMA-617 for metastatic castration-resistant prostate cancer. N Engl J Med. 2021;385(12):1091-1103. doi:10.1056/NEJMoa2107322. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34161051/. Acesso em: 19 out. 2026.
  11. de Bono J, Mateo J, Fizazi K, et al. Olaparib for metastatic castration-resistant prostate cancer. N Engl J Med. 2020;382(22):2091-2102. doi:10.1056/NEJMoa1911440. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32343890/. Acesso em: 19 out. 2026.

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