
Uma conversa sobre Deepfakes e golpes na internet na medicina.
Há poucos meses, a BBC documentou algo desumano e que me chocou. Numa reportagem sobre canais do YouTube com “médicos criados por inteligência artificial”, entre 27 mil comentários, encontravam-se histórias como a de um homem de 85 anos que deixou de tomar omeprazol para usar batata-doce; uma mulher de 77 anos que não consulta um médico de verdade há três anos e agradece a um “médico de IA” por conselhos sobre Alzheimer; uma outra, de 80 anos, que interrompeu medicação prescrita por sua ginecologista e passou a ingerir 20 gramas de óleo de abóbora por dia por conta própria.
Infelizmente não são histórias isoladas e eu vejo isso todos os dias no meu consultório. São sintomas de um problema estrutural, que poucos estão dispostos a encarar com seriedade. O que mais precisa acontecer para que pensemos no impacto assustador na população 60+?
O dilema digital do nosso tempo
Vivemos um paradoxo: a sociedade caminha aceleradamente para o digital na promessa de facilitar a vida. O idoso precisa do celular para acessar o Gov.br, a carteira nacional digital, até para estacionar de graça em vaga prioritária. O incrível é que essa mesma sociedade não se preocupou em construir segurança robusta para quem não nasceu brincando e adapto ao universo do digital, das telas e do touchscreen.
Lembro bem da reação de surpresa da minha mãe na primeira vez que mostrei um envio de foto por bluetooth do meu celular para o dela.
Muitos idosos enfrentam dificuldades reais no manejo do telefone. Não por incapacidade cognitiva, mas simplesmente porque cresceram sem intimidade com essa ferramenta. Precisam de ajuda de terceiros. E nem todos têm acesso a um familiar ou amigo de confiança para orientar. Esse vazio é exatamente onde prosperam os golpistas.
Os números não mentem
Na minha especialidade, vejo isso de forma gritante. Perfis falsos de “médicos” vendem remédios para ereção, testosterona, virilidade, com preços exorbitantes e composição duvidosa. Muitos desses medicamentos não contêm sequer o princípio ativo necessário.
Mas o dano vai além do dinheiro desperdiçado. O idoso com sentimento de vergonha está sendo vítima cada vez mais frequente de golpes que desviam valores da sua aposentadoria, roubo de dados sensíveis, fraude financeira. Alguns sites pedem informações pessoais e bancárias no ato da “compra”, dados que depois alimentam outras pirâmides criminosas.
A ilusão da segurança digital
Você pode pensar: ainda bem que existem teleconsultas agora, consultas virtuais, é mais acessível. Sim. E os golpistas sabem disso também. Ferramentas de IA sofisticadas permitem que alguém assuma o rosto de outra pessoa em tempo real, em uma videochamada ao vivo. O idoso vê um rosto médico na tela, acredita estar sendo consultado, e segue a orientação. A segurança que ele sempre conheceu (aquela de olhar nos olhos de um médico de verdade, sentir a presença, a responsabilidade ética de um profissional que está ali, presente) essa segurança desaparece.
Para você ter uma ideia, minha família já foi vítima de uma situação assim. Viralizou na internet um vídeo falso da minha esposa, que é proctologista, fazendo propaganda para um remédio manipulado de hemorroidas. Isso é muito grave, concorda?
O compartilhamento em cascata
Há outro aspecto que me preocupa profundamente. Idosos compartilham massivamente em grupos de WhatsApp notícias falsas, posts enganosos, conselhos de saúde inventados. Quando alguém da família (um neto, um filho mais jovem) aponta Vô, isso não é verdade, o que acontece? Constrangimento. Repreensão. Humilhação. Eles se sentem tratados como criança.
Observei isso em minha própria família, e vejo nos consultórios: muitos idosos continuam compartilhando essas mesmas mentiras, mas agora apenas entre amigos da mesma idade. Por quê? Porque preferem ser enganados juntos a serem corrigidos pelos mais jovens. Isso é socialmente trágico.
O que fazer: um apelo sincero
Não venho aqui com soluções mágicas. Venho com um apelo simples.
Se você é idoso, ou cuida de alguém idoso: não abandone a consulta presencial por medo de não dominar a tecnologia. Aquela relação de segurança (o rosto do médico, o toque, a responsabilidade pessoal dele na sua frente) é importantíssima e insubstituível. Nenhuma tela, nenhuma IA, nenhum perfil de Instagram consegue replicar isso.
Se você lê na internet um post sobre saúde que promete milagre, que oferece um medicamento especial, que vem de um “médico” que você não conhece: pause. Pergunte. Procure o médico que você conhece, que você confia. Sim, é mais lento. Mas é seguro.
E pior. Quantos vídeos estão circulando por aí com rostos conhecidos, como o Dr Drauzio Varella dando recomendações de tratamento e remédios falsos. Isso já foi tema de inúmeras matérias no Fantástico.
Se você recebe algo em um grupo de WhatsApp que parece demais para ser verdade, provavelmente é. Pergunte aos mais jovens, sem medo de parecer ignorante. A ignorância aqui não é uma fraqueza sua. Estamos vivendo num mundo diferente.
E aos filhos, netos, aos mais jovens: correções sim, mas com humanidade. Com paciência. Porque o medo do constrangimento não é fraqueza dos idosos, é uma barreira que a gente mesmo criou.
Técnica, ética, humanidade
A tecnologia veio para ficar. Mas a humanidade também. A verdade é que a medicina de verdade (aquela que salva vidas, que previne doenças, que oferece dignidade) ela continua acontecendo entre pessoas. Entre um médico responsável e um paciente confiante.
Deepfakes, IAs, perfis falsos: esses são os sintomas. A doença de fundo é uma sociedade que acelerou o digital sem garantir proteção real para seus membros mais vulneráveis.
Pode parecer clichê, mas não é: se você é idoso, sua vida tem valor. Vale a pena o tempo de uma consulta presencial, questionar, pedir ajuda. Nenhuma vaga de estacionamento gratuito vale a pena se você foi enganado no caminho.
Sobre este texto: é um apelo de um médico que vê diariamente o dano causado por essa desconexão entre a velocidade do mundo digital e a proteção real das pessoas. Técnica, ética, humanidade: não são apenas palavras. São escolhas que fazemos todos os dias.
Sobre o especialista

Daniel Hampl, urologista Rio de Janeiro, especialista em cirurgia robótica, certificado pela Intuitive Surgical – DaVinci Surgery®, especialista em tratamento de câncer urológico. Doutorado pela UERJ.
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