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Cateter duplo J: as perguntas que eu mais ouço no consultório

Dr. Daniel Hampl segurando um cateter duplo J no consultório

Eu costumo dizer que o cateter duplo J é o vilão mais bonzinho da história. É um tubinho cheio de furos que a gente coloca por dentro do organismo, conectando o rim à bexiga. Ele serve a motivos muito diferentes: cálculo urinário, tumores, fibrose retroperitoneal, estenose JUP, doenças ginecológicas, mas sempre com o mesmo objetivo: garantir que a urina produzida no rim chegue até a bexiga. Inclusive há quem use o cateter para localizar o ureter durante cirurgias complexas da pelve.

Apesar de tão versátil, ele gera mais perguntas do que quase qualquer outro dispositivo do dia a dia do urologista. É normal sentir tanta dor? É normal arder na hora de urinar? A urina ficou vermelha, isso é sangue? Posso trabalhar? Posso ter relação sexual? Reuni abaixo as perguntas que mais ouço no consultório, com os números que sustentam cada resposta e com o ponto exato em que o desconforto deixa de ser esperado e passa a ser motivo de pronto-socorro.

É normal sentir dor, ardência e ver sangue na urina?

Sim, é bastante comum. Numa série de 50 mil procedimentos, sintomas irritativos da bexiga apareceram em 32,7% dos pacientes e sangue na urina em 10,4%. Desses mais de cinco mil episódios de sangramento, sete precisaram de transfusão.1 Em estudos que perguntam ao paciente sintoma por sintoma, com questionário validado, o número sobe: até 80% relatam algum incômodo urinário.2 A diferença entre os dois números diz algo útil. Registro grande capta o que foi anotado no prontuário; questionário capta o que a pessoa sente. Quem está com o cateter vive mais perto do segundo número.

Os dois extremos

Na prática, existem dois extremos. Uns não sentem absolutamente nada com a presença do cateter. Outros não toleram sequer minutos com o dispositivo implantado.

Todos os meus pacientes que utilizam cateter duplo J estão planilhados com nome completo e telefone. O motivo é justamente o primeiro extremo: se a pessoa não sente nada, existe uma chance perigosa de que ela esqueça o cateter. E isso é bastante perigoso, porque o dispositivo é momentâneo. Mesmo quando usamos o cateter como um recurso definitivo no tratamento de pacientes com câncer avançado, ele não pode ficar ad eternum. Precisa ser trocado, e o paciente tem que saber exatamente qual é esse prazo.

O outro extremo, de quem não suporta o cateter, às vezes exige uma solução mais invasiva. Dependendo do motivo que levou ao implante, a alternativa ao cateter passa a ser uma nefrostomia: um tubo colocado na região lombar, direto no rim, saindo pela pele para garantir a drenagem da urina. As diretrizes europeias tratam a nefrostomia e o cateter como as duas vias possíveis de descompressão do rim.3

A imensa maioria das pessoas fica no meio do caminho. Nesse meio do caminho é comum sentir um desconforto parecido com dor de cálculo, um pouco mais leve; ardência ao urinar; e vontade de ir ao banheiro várias vezes ao longo do dia. E, enquanto o cateter estiver posicionado, sim: pode sair sangue no xixi.

Por que a urina pode sair vermelha

Eu costumo fazer uma analogia com escovar o dente. Às vezes você escova e sai sangue na gengiva. O ureter, que é o canal onde o cateter está posicionado, também tem uma mucosinha parecida com a sua gengiva. Quando o cateter roça, raspa ali naquela mucosa, pode sim sair sangue, e ele vai ser exteriorizado na sua urina. A cor não deve chamar tanto a sua atenção: pode ir do vermelho vivo até um vinho escuro, meio cor de refrigerante. Você também pode eliminar pequenos coágulos.

Posso trabalhar? Quantos dias de repouso e de atestado?

Não existe uma regra absoluta de repouso. Na teoria, você pode implantar o cateter num dia e retomar suas atividades no dia seguinte. Na prática, costumamos dar alguns dias de adaptação, ou de controle de alguma infecção que estivesse acontecendo.

O atestado, porém, quase nunca é uma decisão clínica pura. Ele é também burocrática e trabalhista. Se o mesmo CID for usado para afastar você por mais de 15 dias, o caso passa a ser do INSS, que é quem cobre a incapacidade para o trabalho acima desse período.4 A imensa maioria dos trabalhadores não gosta dessa solução.

Como o cateter costuma ser colocado em cenários sem resolução instantânea, o que faço é o seguinte. Quando dá para retirar o cateter em cerca de sete dias, cabe um atestado desse tamanho. Se você operou um cálculo, colocou o cateter e a perspectiva é que ele fique 5, 7 ou até 14 dias, o atestado faz sentido, porque é o tempo de você se adaptar em casa à sua micção. Quando o prazo ameaça ultrapassar os 15 dias, muitas vezes é melhor não obter o atestado e manter as atividades diárias normalmente.

Posso ter relação sexual com o cateter duplo J?

Depende de como o cateter foi implantado. Existem duas formas.

Com fio extrator

Quando a perspectiva é de pouco tempo e de retirada no próprio consultório, é comum eu deixar um fiozinho extrator, muitas vezes de nylon preto. O cateter fica todo lá dentro, do rim à bexiga, e o fio sai pela uretra até a parte externa do corpo, fixado com esparadrapo ou curativo perto da região genital. Com ele, a retirada é feita no consultório, sem anestesia, sem sedação e com desconforto mínimo. Num estudo randomizado com 114 pacientes, a dor na retirada pelo fio foi menor do que pela cistoscopia: 2,94 contra 4,23 numa escala de 0 a 10.5

O problema é o atrito. Qualquer trauma ou puxada inadvertida do fio pode exteriorizar o dispositivo. No mesmo estudo, 3 dos 58 pacientes com fio tiveram o cateter removido acidentalmente antes da consulta, e nenhum deles precisou de novo implante.5 O grupo com fio também relatou mais ardência e mais preocupação com a atividade sexual. Portanto, enquanto estiver com fio extrator, não é prudente manter relações sexuais. Piscina e praia também entram na lista do que evitar.

O curativo que segura o fio, inclusive, não precisa ser trocado. Pode ser molhado durante o banho e muito cuidado na hora da secagem. Evite arrastar a toalha e apenas comprima a região.

Sem fio extrator

Na outra modalidade, o cateter está todo dentro do seu corpo. Aí você não só pode manter relações sexuais normalmente como pode fazer todas as suas atividades do dia a dia, inclusive atividade física.

O cateter duplo J pode sair do lugar?

Pode, nas duas modalidades. Quando colocamos o fio extrator, estamos assumindo um risco de disposicionamento, às vezes num movimento intempestivo na hora de trocar de roupa, ou de se enxugar depois do banho. Na mesma série de 50 mil procedimentos, o cateter migrou para cima em 0,9% dos casos e para baixo em 0,7%.1

O que mais acontece quando o cateter se disposiciona é a incontinência: começa a pingar urina pela uretra, sem o seu controle. O motivo é anatômico. A ponta que deveria estar na bexiga embicou na uretra e ultrapassou os esfíncteres, que são os mecanismos de controle urinário. Assim, a urina produzida no rim passa por dentro do cateter e cai direto na uretra, molhando a roupa. Caso isso ocorra, é fundamental decidir o que fazer em conjunto com o seu médico. Não tente empurrar o cateter de volta nem puxe-o por completo sem que seu médico participe dessa decisão.

Sem o fio, pode acontecer a mesma coisa. Pode também o cateter sair do rim e ficar todo na bexiga, causando bastante desconforto. E, em casos mais raros, mas eu já vi acontecer algumas vezes, o paciente elimina o cateter inteiro no vaso sanitário.

Se qualquer uma dessas situações acontecer, o médico que está te tratando precisa saber. Muitas vezes não tomamos nenhuma conduta e apenas observamos. Dependendo do caso, pode ser necessário voltar ao hospital para implantar um novo cateter duplo J.

Tirei o cateter e continuo com dor. É normal?

Pode acontecer, e acontece com frequência maior do que se imagina. Num estudo com 327 pacientes, 27,3% relataram aumento da dor depois da retirada.6 Em outro, com 104 pacientes, 64% tiveram algum sintoma nas semanas seguintes.7

A explicação mais comum é um espasmo do músculo bem pertinho da bexiga, num local que chamamos de óstio ureteral. Quando ele se contrai, é capaz de ocluir completamente a luz do canal e impedir a passagem da urina. Então, se esse óstio for incomodado na hora da retirada, ele pode reagir com uma contração exacerbada e manter um quadro de dor.

Algumas medidas ajudam. Quanto mais tempo de cateter, menos provável que essa dor ocorra: no estudo com 327 pacientes, quem ficou mais de sete dias com o cateter teve menos chance de dor na retirada.6 Um analgésico ou anti-inflamatório no dia da retirada, mantido por algumas horas, também é uma opção, assim como medicamentos que relaxam a musculatura dessa região. Em ensaio randomizado com 131 pacientes, tanto o alfabloqueador quanto o antimuscarínico reduziram os sintomas de quem estava com o cateter.8 Qual deles, e se algum, é decisão do seu médico.

Quanto tempo posso ficar com o cateter duplo J?

O cateter duplo J não é um dispositivo definitivo. Ele precisa ser retirado ou trocado de acordo com a causa que motivou o implante.

A maioria dos cateteres permite permanência de até 12 meses, que é o prazo declarado pelo fabricante nos modelos de silicone para longa permanência.9 O que vemos na prática, e isso varia de paciente para paciente, é que em torno do sexto mês as calcificações já começam a aparecer. Os números acompanham essa impressão. A incrustação atinge 9,2% dos cateteres retirados em até seis semanas, 47,5% entre seis e doze semanas e 76,3% depois disso.10 Num estudo com 105 pacientes usando cateteres de silicone de longa permanência, a proporção de cateteres ainda funcionando, sem falha que exigisse troca, era de 98% aos três meses, 88% aos seis e 69% aos doze.11

Existem cateteres fabricados para longa permanência, com materiais apropriados para diminuir o risco de infecção e calcificação. Mesmo eles necessitam de trocas regulares, geralmente no 12º mês.

E se o prazo passar? Duas séries de pacientes com cateter esquecido dão a dimensão. Entre 28 casos, houve complicação em 67,8%, insuficiência renal em 6 pacientes, uma nefrectomia e 3 mortes por sepse e falência de múltiplos órgãos.12 Em outra série, de 25 casos com tempo médio de 20 meses, houve fragmentação do cateter em 20% e sepse em 8%.13 A calcificação pode obstruir o rim por completo e fazer com que ele perca a função, pode inviabilizar a retirada por via endoscópica e, em casos graves, determinar a retirada do rim. Havendo complicação infecciosa, o risco de óbito não pode ser descartado.

O que eu não posso fazer com o cateter duplo J?

Se o cateter não tiver fio extrator, você tem poucas restrições. Na verdade, não há consenso sobre o que se deve ou não se deve fazer. Eu já tive paciente que foi lutar MMA nos Estados Unidos com um cateter duplo J implantado. Também tive um paciente que virou correspondente do jornal dele em Tóquio e passou meses em outro país trabalhando, dirigindo, pegando peso e treinando na academia.

Quando procurar um pronto-socorro com o cateter duplo J

Os sinais que exigem uma atitude mais drástica não são os desconfortos leves, nem aquela ardência para urinar. Procure atendimento, ou o seu médico, se acontecer febre, calafrio, sudorese, taquicardia, dor que não é controlada pelos medicamentos prescritos, qualquer sinal mais grave de infecção, ou sangramento em grande quantidade.

Fora isso, conviver com o cateter duplo J demanda um pouco de paciência. E a solução da questão, exceto em casos oncológicos, muitas vezes passa pelo tempo que o seu plano de saúde exige para autorizar a cirurgia eletiva depois da emergência que fez você colocar o cateter.

Se você está com um cateter duplo J agora, faça uma coisa hoje: descubra a data em que ele precisa sair ou ser trocado, anote e confirme com quem implantou. É a única informação sobre esse dispositivo que não pode ficar só na sua memória.

Referências

  1. Geavlete P, et al. Ureteral stent complications: experience on 50,000 procedures. J Med Life. 2021;14(6):769-775. Disponível em: medandlife.org
  2. Joshi HB, et al. Indwelling ureteral stents: evaluation of symptoms, quality of life and utility. J Urol. 2003. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  3. EAU. Pocket Guidelines on Urolithiasis. 2025. Disponível em: uroweb.org
  4. INSS. Benefício por incapacidade temporária. Disponível em: gov.br
  5. Kim DJ, et al. Rethinking of ureteral stent removal using an extraction string: a randomized controlled study. BMC Urol. 2015;15:121. Disponível em: link.springer.com
  6. Rezaee ME, et al. Stent duration and increased pain in the hours after ureteral stent removal. AUA Annual Meeting, 2019 (resumo). Disponível em: urotoday.com
  7. Theckumparampil N, et al. Symptoms after removal of ureteral stents. J Endourol. 2015. Disponível em: journals.sagepub.com
  8. EL-Nahas AR, et al. Alpha blocker (tamsulosin) versus anticholinergic (solifenacin) in ureteral stent-related symptoms: randomized controlled trial. World J Urol. 2016;34(7):963-968. Disponível em: link.springer.com
  9. Coloplast. Stenostent ureteral stent: permanência de até 12 meses. Disponível em: coloplast.us
  10. el-Faqih SR, et al. Polyurethane internal ureteral stents in treatment of stone patients: morbidity related to indwelling times. J Urol. 1991;146:1487-1491. Disponível em: doi.org
  11. Corrales M, Keller EX, Barghouthy Y, Pauchard F, De Coninck V, Traxer O. Silicone double-J stents for long-term ureteral stenting: results from a multicentric PEARLS analysis. World J Urol. 2025;43:292. Disponível em: link.springer.com
  12. Arora S, et al. Forgotten reminders: managing 28 forgotten double-J stents and related complications. Indian J Surg. 2015;77(Suppl 3):1165-1171. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  13. Al-Hajjaj M, et al. Forgotten double-J ureteral stent: an analysis of 25 cases in a tertiary hospital. Ann Med Surg. 2022;80:104223. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov

Sobre o autor

Dr. Daniel Hampl
Urologista | Cirurgião Robótico
Especialista em Oncologia Urológica
Rio de Janeiro | Barra da Tijuca e Ipanema
danielhampl.com.br

Este artigo é informativo e não substitui a consulta médica. A decisão de implantar, manter, trocar ou retirar um cateter duplo J depende de avaliação individual e deve ser tomada com o seu urologista.

Publicado em 14 de setembro de 2026. Revisado em 14 de setembro de 2026.

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