Fimose é a dificuldade para expor a glande, a cabeça do pênis. E não, nem toda fimose precisa de cirurgia. Neste texto eu reuni as perguntas que eu mais recebo no consultório sobre o assunto. Vou respondê-las da forma mais simples e objetiva que eu conseguir.
Em criança pequena, a pele que não retrai costuma fazer parte do desenvolvimento normal. Já em adolescente e em adulto, o que decide a conduta é o grau do estreitamento, a presença de sintomas e a existência de cicatriz. Existe, porém, uma situação em que você não pode esperar: a parafimose, que eu explico mais abaixo.
O que é fimose?
Fimose é toda dificuldade para expor a glande. Isso acontece porque o prepúcio, que é a pele que recobre a glande, fica estreito demais para deslizar para trás.
Fimose sempre precisa de cirurgia?
Não. A resposta depende muito da idade.
Em crianças pequenas
Em crianças pequenas, a pele ainda não retrai facilmente. Isso é bastante comum e faz parte do desenvolvimento normal. Para você ter uma ideia, só 4% dos meninos conseguem retrair o prepúcio ao nascer. Com 1 ano, são cerca de metade; aos 3 anos, 89%. Entre os 16 e os 18 anos, apenas 1% ainda tem fimose.1
Em adolescentes e adultos
Em adolescentes e em adultos, a gente precisa avaliar três coisas. Primeiro, se essa pele está estreita demais. Depois, se existem sintomas e se há cicatrizes no prepúcio.
A cicatriz pesa bastante nessa avaliação, porque separa a fimose fisiológica, que é a do desenvolvimento, da fimose patológica. Na patológica, o anel de pele estreito fica fibroso, esbranquiçado e mais grosso.1
Posso ter relações sexuais com fimose?
Nem sempre a fimose impede o sexo. Mas ela pode provocar dor, fissuras e sangramentos. Por isso, a minha recomendação é que você não force a pele e não insista se houver qualquer tipo de dor.
Parafimose: quando a pele não volta
Se você forçar a passagem da pele, ela pode ficar presa lá atrás da glande, na região que a gente chama de sulco balanoprepucial. E aí você não consegue voltar com ela para a posição original. Nessa situação, a gente tem o diagnóstico de outra condição, chamada parafimose.
A parafimose é uma emergência médica.1 Se a pele do seu pênis retrair e você não conseguir colocá-la de volta, procure uma emergência o mais rápido possível.
Pomada resolve? Dá para tratar fimose sem cirurgia?
Olha, em casos bem selecionados, e dependendo da idade, pomadas com corticoide podem sim melhorar a retração. O mesmo vale para alguns movimentos suaves, sempre orientados pelo seu médico.
Em crianças, a diretriz europeia descreve sucesso acima de 80% com quatro a oito semanas de pomada. Ainda assim, a fimose volta em até 17% dos casos.1 Uma revisão Cochrane com 14 estudos randomizados e 1.459 meninos aponta na mesma direção. Além disso, os efeitos adversos foram raros: um evento no grupo da pomada contra seis no grupo controle, somando 11 estudos.2 No adulto, a pomada também aparece como opção conservadora, mas com menos números para sustentar.3
Só não use essa minha frase como recomendação do que fazer. A resposta oficial para essa pergunta depende da causa e do grau do estreitamento. Quando há cicatrizes ou sintomas persistentes, a postectomia, que é a cirurgia que remove o prepúcio, pode ser indicada.1,3 Eu explico as técnicas e o pós-operatório no texto sobre cirurgia de fimose.
Posso tirar a fimose em casa?
Tratar em casa com prescrição é diferente de tentar resolver sozinho. Puxar a pele à força, cortar, usar dispositivos por conta própria: tudo isso pode causar feridas e piorar muito a situação. Não recomendo.
Além disso, puxar à força é justamente o caminho para a parafimose que eu descrevi acima.
E o anel, o Plastibell?
O Plastibell é um dispositivo usado em uma técnica de circuncisão, principalmente em crianças. Continua sendo um procedimento cirúrgico, com anestesia e necessidade de acompanhamento pós-operatório. Não é um anel para colocar em casa.
Num estudo brasileiro com 119 crianças, o procedimento foi feito sob anestesia geral, com bloqueio dos nervos do pênis. O anel caiu em média em 16 dias, e as crianças voltaram para consultas até o quarto mês. Houve complicações tardias em 26,8% delas, a maioria pequena, como aderências da pele (15,1%).4
Quanto custa a cirurgia?
Olha, o valor depende bastante da técnica, da anestesia escolhida, da equipe que vai fazer o procedimento e do local.
Existem urologistas que fazem a cirurgia em consultório. Eu, particularmente, não sou muito fã dessa técnica. Gosto bastante quando o meu paciente acorda da sedação e pergunta: “Doutor, não vamos operar?”. E a minha resposta é: “Já fizemos, faz tempo.”
Ou seja, é pelo seu conforto e pela sua segurança que eu levo os pacientes para o centro cirúrgico, com o suporte de um anestesista. Uma sedação e uma anestesia bem feitas não deixam memórias negativas nem traumas sobre o procedimento.
Menor de idade pode ser atendido pelo urologista?
Pode, sim. O adolescente deve ser ouvido e ter a sua privacidade respeitada, considerando a capacidade de compreensão dele e as situações de risco. Na prática, o Código de Ética Médica protege o sigilo do adolescente que tem capacidade de discernimento, inclusive em relação aos pais. A exceção é quando o silêncio puder causar dano a ele.5
Para uma cirurgia eletiva, em regra, é necessária a autorização do responsável legal quando o paciente tem menos de 18 anos.5
Quando procurar um urologista
Três situações pedem uma consulta: pele que continua sem retrair depois da infância, dor ou sangramento na relação sexual, e cicatriz ou anel esbranquiçado no prepúcio. Uma situação pede pronto-socorro na hora: a pele que ficou presa atrás da glande.
Na consulta, eu examino, defino se a fimose é fisiológica ou patológica e só então a gente conversa sobre pomada, acompanhamento ou cirurgia.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta. Diagnóstico e tratamento dependem de exame individual.
Referências
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Paediatric Urology: Phimosis and other abnormalities of the penile skin. Edição vigente. Disponível em: uroweb.org. Acesso em: 2 out. 2026.
- Moreno G, Ramirez C, Corbalán J, Peñaloza B, Morel Marambio M, Pantoja T. Topical corticosteroids for treating phimosis in boys. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2024. DOI: 10.1002/14651858.CD008973.pub3.
- Rosato E, Miano R, Germani S, Asimakopoulos AD. Phimosis in adults: narrative review of the new available devices and the standard treatments. Clinics and Practice, 2024. DOI: 10.3390/clinpract14010028.
- Netto JM, et al. A prospective evaluation of Plastibell® circumcision in older children. International Braz J Urol, 2013;39(4):558-64. DOI: 10.1590/S1677-5538.IBJU.2013.04.14.
- Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica, Resolução CFM nº 2.217/2018, arts. 22 e 74. Disponível em: portal.cfm.org.br. Acesso em: 2 out. 2026.
Dr. Daniel Hampl. Urologista e cirurgião robótico, Rio de Janeiro. CRM-RJ 52.81807-0




